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Bhagavad-Gita
Capítulo um
Observando os Exércitos
1. Dhritarastra disse: Ó Sañjaya, que fizeram meus filhos e os filhos de Pandu depois que se reuniram no lugar de peregrinação em Kurukshetra, desejando lutar?
2. Sañjaya disse: Ó rei, após observar o exército disposto em formação militar pelos filhos de Pandu, o rei Duryodhana foi até seu preceptor e falou as seguintes palavras.
3. Ó meu mestre, olha o grande exército dos filhos de Pandu, tão habilmente organizado por teu inteligente discípulo, o filho de Drupada.
4. Aqui neste exército, estão muitos arqueiros heróicos que sabem lutar tanto quanto Bhima e Arjuna: grandes lutadores como Yuyudhana, Virata e Drupada.
5. Há também grandes combatentes heróicos e poderosos, tais como Dhristaketu, Chekitana, Kashiraja, Purujit, Kuntibhoja e Saibya.
6. Há o possante Yudhamanyu, o poderosíssimo Uttamauja, o filho de Subhadra e os filhos de Draupadi. Todos esses guerreiros lutam habilmente em suas quadrigas.
7. Mas para a tua informação, ó melhor dos brahmanas, deixa-me falar-te sobre os capitães que estão especialmente qualificados para conduzir minha força militar.
8. Há personalidades como tu, Bhisma, Karna, Kripa, Asvatthama, Vikarna e o filho de Somadatta chamado Bhurisrava, que sempre saem vitoriosos na batalha.
9. Há muitos outros heróis que estão preparados a sacrificar sua vida por mim. Todos eles estão bem equipados com diversas espécies de armas, e todos são experientes na ciência militar.
10. Nossa força é incomensurável, e estamos perfeitamente protegidos pelo avô Bhisma, ao passo que a força dos Pandavas, cuidadosamente protegida por Bhima, é limitada.
11. Todos deveis dar todo o apoio ao avô Bhisma, à medida que assumis vossos respectivos pontos estratégicos enquanto entrais na falange do exército.
12. Então Bhisma, o grande e valente patriarca da dinastia Kuru, o avô dos combatentes, soprou seu búzio bem alto, produzindo um som parecido com o rugido de um leão, dando alegria a Duryodhana.
13. Depois disso, os búzios, tambores, clarins, trombetas e cornetas soaram todos de repente, produzindo um som tumultuoso.
14. No outro lado, o Senhor Krishna e Arjuna, acomodados numa grande quadriga puxada por cavalos brancos, soaram seus búzios transcendentais.
15. O Senhor Krishna soprou Seu búzio, chamado Panchajanya; Arjuna soprou o seu, o Devadatta; e Bhima, o comedor voraz que executa tarefas hercúleas, soprou seu aterrador búzio, chamado Paundra.
16-18. O rei Yudhisthira, filho de Kunti, soprou seu búzio, o Anantavijaya, e Nakula e Sahadeva sopraram o Sugosha e Manipuspaka. Aquele grande arqueiro, o rei de Kashi, o grande lutador Sikhandi, Dhristadyumna, Virata, o invencível Satyaki, Drupada, os filhos de Draupadi, e os outros, ó rei, tais como o poderoso filho de Subhadra, todos sopraram seus respectivos búzios.
19. O som arrancado destes diferentes búzios tornou-se estrondoso. Vibrando no céu e na terra, ele abalou os corações dos filhos de Dhritarastra.
20. Naquele momento, Arjuna, o filho de Pandu, sentado na quadriga que portava a bandeira na qual estava estampada a marca de Hanuman, pegou do seu arco e preparou-se para disparar suas flechas. Ó rei, após ver os filhos de Dhritarastra dispostos em formação militar, Arjuna então dirigiu ao Senhor Krishna estas palavras.
21-22. Arjuna disse: Ó infalível, por favor, coloca minha quadriga entre os dois exércitos para que eu possa ver as pessoas aqui presentes, que desejam lutar, e com quem devo me digladiar neste grande empreendimento bélico.
23. Deixa-me ver aqueles que vieram aqui para lutar, desejando agradar ao mal-intencionado filho de Dhritarastra.
24. Sañjaya disse: Ó descendente de Bharata, tendo recebido de Arjuna essa determinação, o Senhor Krishna conduziu a magnífica quadriga para o meio dos exércitos de ambos os grupos.
25. Na presença de Bhisma, de Drona e de todos os outros comandantes do mundo, o Senhor disse: Simplesmente observa, Partha, todos os Kurus aqui reunidos.
26. Foi então que Arjuna pôde ver, no meio dos exércitos em ambos os grupos, seus pais, avós, mestres, tios maternos, irmãos, filhos, netos, amigos e também seus sogros e benquerentes.
27. Ao ver todas essas diferentes categorias de amigos e parentes, o filho de Kunti, Arjuna, ficou dominado pela compaixão e falou as seguintes palavras.
28. Arjuna disse: Meu querido Krishna, vendo diante de mim meus amigos e parentes com esse espírito belicoso, sinto os membros do meu corpo tremer e minha boca secar.
29. Todo o meu corpo está tremendo, meus pêlos estão arrepiados, meu arco Gandiva está escorregando da minha mão e minha pele está ardendo.
30. Já não sou capaz de continuar aqui. Estou esquecendo-me de mim mesmo e minha mente está girando. Parece que tudo traz infortúnio, ó Krishna, matador do demônio Keshi.
31. Não consigo ver qual o bem que decorreria da morte de meus próprios parentes nesta batalha, nem posso eu, meu querido Krishna, desejar alguma vitória, reino ou felicidade subseqüentes.
32-35. Ó Govinda, que nos adiantam um reino, felicidade ou até mesmo a própria vida quando todos aqueles em razão de quem somos impelidos a desejar tudo isto estão agora enfileirados neste campo de batalha? Ó Madhusudana, quando mestres, pais, filhos, avós, tios maternos, sogros, netos, cunhados e outros parentes estão prontos a abandonar suas vidas e propriedades e colocam-se diante de mim, por que deveria eu querer matá-los, mesmo que, por sua parte, eles sejam capazes de matar-me? Ó mantenedor de todas as entidades vivas, não estou preparado para lutar com eles, nem mesmo em troca dos três mundos, muito menos desta Terra. Que prazer obteremos em matarmos os filhos de Dhritarastra?
36. O pecado nos dominará se matarmos tais agressores. Portanto, não convém matarmos os filhos de Dhritarastra e nossos amigos. Que ganharíamos, ó Krishna, esposo da deusa da fortuna, e como poderíamos ser felizes, matando nossos próprios parentes?
37-38. Ó Janardana, embora estes homens, com seus corações dominados pela cobiça, não achem errado matar a própria família ou brigar com os amigos, por que deveríamos nós, que entendemos ser crime destruir uma família, ocupar-nos nestes atos pecaminosos?
39. Com a destruição da dinastia, a tradição eterna da família extingue-se, e assim o resto da família se envolve em irreligião.
40. Quando a irreligião é preeminente na família, ó Krishna, as mulheres da família se poluem, e da degradação feminina, ó descendente de Vrishni, vem progênie indesejada.
41. Um aumento de população indesejada decerto causa vida infernal tanto para a família quanto para aqueles que destroem a tradição familiar. Os ancestrais dessas famílias corruptas caem, porque os rituais através dos quais se lhes oferecem alimento e água são inteiramente interrompidos.
42. Pelas más ações daqueles que destroem a tradição familiar, e acabam dando origem a crianças indesejadas, todas as espécies de projetos comunitários e atividades para o bem-estar da família entram em colapso.
43. Ó Krishna, mantenedor do povo, eu ouvi através da sucessão discipular que aqueles que destroem as tradições familiares sempre residem no inferno.
44. Ai de mim! Como é estranho que estejamos nos preparando para cometer atos extremamente pecaminosos. Levados pelo desejo de desfrutar da felicidade régia, estamos decididos a matar nossos próprios parentes.
45. Para mim, seria melhor que os filhos de Dhritarastra, de armas na mão, matassem-me no campo de batalha, desarmado e sem opor resistência.
46. Sañjaya disse: Arjuna, tendo falado essas palavras no campo de batalha, pôs de lado seu arco e flechas e sentou-se na quadriga, com sua mente dominada pelo pesar.
Capítulo dois
Resumo do Conteúdo do Gita
1. Sañjaya disse: Vendo Arjuna cheio de compaixão, sua mente deprimida, seus olhos rasos d’água, Madhusudana, Krishna, disse as seguintes palavras:
2. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, como foi que estas impurezas desenvolveram-se em ti? Elas não condizem com um homem que conhece o valor da vida. Elas não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia.
3. Ó filho de Pritha, não cedas a esta impotência degradante. Isto não te fica bem. Abandona esta mesquinha fraqueza de coração e levanta-te, ó castigador dos inimigos.
4. Arjuna disse: Ó matador dos inimigos, ó matador de Madhu, como é que na batalha posso contra-atacar com flechas homens como Bhisma e Drona, que são dignos de minha adoração?
5. É preferível viver mendigando neste mundo que viver à custa das vidas de grandes almas que são meus mestres. Embora desejem conquistas terrenas, eles são superiores. Se forem mortos, tudo o que desfrutarmos estará manchado de sangue.
6. Tampouco sabemos o que é melhor – vencê-los ou ser vencidos por eles. Se matássemos os filhos de Dhritarastra, não nos importaríamos de viver. Contudo, eles agora estão diante de nós no campo de batalha.
7. Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi toda a compostura devido à torpe fraqueza. Nesta condição, estou Te pedindo que me digas com certeza o que é melhor para mim. Agora sou Teu discípulo e uma alma rendida a Ti. Por favor, instrui-me.
8. Não consigo descobrir um meio de afastar este pesar que está secando meus sentidos. Não serei capaz de suprimi-lo nem mesmo que ganhe na Terra um reino próspero e inigualável com soberania como a dos semideuses nos céus.
9. Sañjaya disse: Tendo falado essas palavras, Arjuna, o castigador dos inimigos, disse a Krishna, Govinda, não lutarei, e ficou calado.
10. Ó descendente de Bharata, naquele momento, Krishna, no meio dos dois exércitos, sorriu e disse as seguintes palavras ao desconsolado Arjuna.
11. A Suprema Personalidade de Deus disse: Enquanto falas palavras sábias, estás lamentando aquilo com que não precisas te afligir. Os sábios não lamentam nem os vivos nem os mortos.
12. Nunca houve um tempo que Eu não existisse, nem tu, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir.
13. Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com essa mudança.
14. Ó Filho de Kunti, o aparecimento transitório de felicidade e aflição, e seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e é preciso aprender a tolerá-los sem perturbar-se.
15. Ó melhor entre os homens (Arjuna), quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e que permanece estável em ambas as circunstâncias decerto está qualificado para alcançar a liberação.
16. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que o não-existente (o corpo material) não permanece e o eterno (a alma) não muda. Isto eles concluíram estudando a natureza de ambos.
17. Deves saber que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível.
18. O corpo material da entidade viva indestrutível, imensurável e eterna decerto chegará ao fim; portanto, luta, ó descendente de Bharata.
19. Nem aquele que pensa que a entidade viva é o matador nem aquele que pensa que ela é morta estão em conhecimento, pois o eu não mata nem é morto.
20. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre-existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre.
21. Ó Partha, como pode uma pessoa que sabe que a alma é indestrutível, eterna, não-nascida e imutável matar alguém ou fazer com que outrem mate?
22. Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis.
23. A alma nunca pode ser despedaçada por arma alguma, tampouco pode ser queimada pelo fogo, umedecida pela água ou enxugada pelo vento.
24. Essa alma individual é inquebrável e indissolúvel, e não pode ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente em toda parte, é imutável, imóvel e eternamente a mesma.
25. Diz-se que a alma é invisível, inconcebível e imutável. Sabendo disto, não te deves afligir por causa do corpo.
26. Se, no entanto, pensas que a alma sempre nasce e morre para sempre, mesmo assim, não tens razão para lamentar, ó pessoa de braços poderosos.
27. Alguém que nasceu com certeza morrerá, e após a morte ele voltará a nascer. Portanto, no inevitável cumprimento do dever, não deves te lamentar.
28. Todos os seres criados são imanifestos no seu começo, manifestos no seu estado intermediário, e de novo imanifestos quando aniquilados. Então, qual a necessidade de lamentação?
29. Alguns consideram a alma espantosa, outros descrevem-na como espantosa, e alguns ouvem dizer que ela é espantosa, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la.
30. Ó descendente de Bharata, aquele que mora no corpo nunca pode ser morto. Portanto, não precisas afligir-te por nenhum ser vivo.
31. Considerando teu dever específico de kshatriya, deves saber que não há melhor ocupação para ti do que lutar conforme determinam os princípios religiosos; e assim não há necessidade de hesitação.
32. Ó Partha, felizes são os kshatriyas a quem aparece essa oportunidade de lutar, abrindo-lhes as portas dos planetas celestiais.
33. Se, contudo, não executares teu dever religioso e não lutares, então na certa incorrerás em pecados por negligenciar teus deveres e assim perderás tua reputação de lutador.
34. As pessoas sempre falarão de tua infâmia, e para alguém respeitável, a desonra é pior do que a morte.
35. Os grandes generais que têm na mais alta estima o teu nome e fama pensarão que deixaste o campo de batalha simplesmente porque estavas com medo, e portanto te considerarão insignificante.
36. Teus inimigos te descreverão com muitas palavras indelicadas e desdenharão tua habilidade. Que poderia ser mais doloroso para ti?
37. Ó filho de Kunti, ou serás morto no campo de batalha e alcançarás os planetas celestiais, ou conquistarás e gozarás o reino terrestre. Portanto, levanta-te com determinação e luta.
38. Luta pelo simples fato de lutar, sem levar em consideração felicidade ou aflição, perda ou ganho, vitória ou derrota – e adotando este procedimento nunca incorrerás em pecado.
39. Até aqui, descrevi-te este conhecimento através do estudo analítico. Agora ouve enquanto Eu o explico em termos do trabalho sem resultados fruitivos. Ó filho de Pritha, quando ages com esse conhecimento, podes libertar-te do cativeiro decorrente das ações.
40. Neste esforço, não há perda nem diminuição, e um pequeno progresso neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo.
41. Aqueles que estão neste caminho são resolutos, e têm apenas um objetivo. Ó amado filho dos Kurus, a inteligência daqueles que são irresolutos tem muitas ramificações.
42-43. Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais, com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem ávidos de gozo dos sentidos e vida opulenta, eles dizem que isto é tudo o que existe.
44. Nas mentes daqueles que estão muito apegados ao gozo dos sentidos e à opulência material, e que se deixam confundir por estas coisas, não ocorre a determinação resoluta de prestar serviço devocional ao Senhor Supremo.
45. Os Vedas tratam principalmente do tema três modos da natureza material. Ó Arjuna, torna-te transcendental a esses três modos. Liberta-te de todas as dualidades e de todos os anseios advindos da busca de ganho e segurança e estabelece-te no eu.
46. Todos os propósitos satisfeitos por um poço pequeno podem imediatamente ser satisfeitos por um grande reservatório de água. De modo semelhante, pode servir-se de todos os propósitos dos Vedas quem conhece o seu propósito subjacente.
47. Tens o direito de executar teu dever prescrito, mas não podes exigir os frutos da ação. Jamais te consideres a causa dos resultados de tuas atividades, e jamais te apegues ao não-cumprimento do teu dever.
48. Desempenha teu dever com equilíbrio, ó Arjuna, abandonando todo o apego a sucesso ou fracasso. Essa equanimidade chama-se yoga.
49. Ó Dhanañjaya, através do serviço devocional, mantém todas as atividades abomináveis bem distantes, e com esta consciência, rende-te ao Senhor. Aqueles que querem gozar o fruto de seu trabalho são mesquinhos.
50. Um homem ocupado em serviço devocional livra-se tanto das boas quanto das más ações, mesmo nesta vida. Portanto, empenha-te na yoga, que é a arte de todo o trabalho.
51. Ocupando-se nesse serviço devocional ao Senhor, grandes sábios ou devotos livram-se dos resultados do trabalho no mundo material. Desse modo, eles transcendem ao ciclo de nascimentos e mortes e passam a viver além de todas as misérias.
52. Quando tua inteligência tiver cruzado a densa floresta da ilusão, tornar-te-ás indiferente a tudo o que se ouviu e a tudo o que se há de ouvir.
53. Quando tua mente deixar de perturbar-se pela linguagem florida dos Vedas, e quando se fixar no transe da auto-realização, então terás atingido a consciência divina.
54. Arjuna disse: Ó Krishna, quais são os sintomas daquele cuja consciência está absorta nessa transcendência? Como fala, e qual é sua linguagem? Como se senta e como caminha?
55. A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó Partha, quando alguém desiste de todas as variedades de desejo de gozo dos sentidos, que surgem da invenção mental, e quando sua mente, assim purificada, encontra satisfação apenas no eu, então se diz que ele está em consciência transcendental pura.
56. Quem não deixa a mente se perturbar mesmo em meio às três classes de misérias, nem exulta quando há felicidade, e que está livre do apego, medo e ira, é chamado um sábio de mente estável.
57. No mundo material, quem não se deixa afetar pelo bem ou mal a que está sujeito a obter, sem louvá-los nem desprezá-los, está firmemente fixo em conhecimento perfeito.
58. Aquele que é capaz de retirar seus sentidos dos objetos dos sentidos, assim como a tartaruga recolhe seus membros para dentro da carapaça, está firmemente fixo em consciência perfeita.
59. A alma corporificada pode restringir-se do gozo dos sentidos, embora permaneça o gosto pelos objetos dos sentidos. Porém, interrompendo tais ocupações ao experimentar um gosto superior, ela se fixa em consciência.
60. Os sentidos são tão fortes e impetuosos, ó Arjuna, que arrebatam à força mesmo a mente de um homem de discriminação que se esforça por controlá-los.
61. Aquele que restringe os sentidos, mantendo-os sob completo controle, e fixa sua consciência em Mim, é conhecido como homem de inteligência estável.
62. Enquanto contempla os objetos dos sentidos, a pessoa desenvolve apego a eles, e de tal apego se desenvolve a luxúria, e da luxúria surge a ira.
63. Da ira, surge completa ilusão, e da ilusão, a confusão da memória. Quando a memória está confusa, perde-se a inteligência, e ao perder a inteligência, cai-se de novo no poço material.
64. Mas quem está livre de todo o apego e aversão e é capaz de controlar seus sentidos através dos princípios reguladores com os quais se obtém a liberdade, pode receber a completa misericórdia do Senhor.
65. Para alguém que sente essa alegria, as três classes de misérias da existência material deixam de existir; nessa consciência jubilosa, a inteligência logo torna-se resoluta.
66. Quem não está vinculado ao Supremo não pode ter inteligência transcendental nem mente estável, sem as quais não há possibilidade de paz. E como pode haver alguma felicidade sem paz?
67. Assim como um vento forte arrasta um barco na água, mesmo um só dos sentidos errantes em que a mente se detenha pode arrebatar a inteligência de um homem.
68. Portanto, ó pessoa de braços poderosos, o indivíduo cujos sentidos são restringidos de seus objetos com certeza tem a inteligência estável.
69. Aquilo que é noite para todos os seres é a hora de despertar para o autocontrolado; e a hora de despertar para todos os seres é noite para o sábio introspectivo.
70. Só quem não se perturba com o incessante fluxo de desejos – que são como rios que entram no oceano, que está sempre sendo enchido mas nunca se agita – pode alcançar a paz, e não o homem que luta para satisfazer esses desejos.
71. Aquele que abandonou todos os desejos de gozo dos sentidos, que vive livre de desejos, que abandonou todo o sentimento de propriedade e não tem ego falso – só ele pode conseguir a paz verdadeira.
72. Este é o caminho da vida espiritual e piedosa, e o homem que a alcança não se confunde. Se, mesmo somente à hora da morte, ele atinge essa posição, pode entrar no reino de Deus.
Capítulo três
Karma-yoga
1. Arjuna disse: Ó Janardana, ó Keshava, por que queres ocupar-me nesta guerra terrível, se achas que a inteligência é melhor do que o trabalho fruitivo?
2. Minha inteligência ficou confusa com Tuas instruções equívocas. Portanto, dize-me definitivamente o que me será mais benéfico.
3. A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó virtuoso Arjuna, acabei de explicar que há duas classes de homens que tentam compreender o eu. Alguns se inclinam a compreendê-lo pela especulação filosófica empírica, e outros, pelo serviço devocional.
4. Não é possível livrar-se da reação só porque se deixa de agir, nem pode alguém atingir a perfeição só porque pratica a renúncia.
5. Todos são irremediavelmente forçados a agir segundo as qualidades que adquirem nos modos da natureza material; portanto, ninguém pode deixar de fazer algo, nem mesmo por um momento.
6. Aquele que impede os sentidos de agir, mas não afasta sua mente dos objetos dos sentidos, decerto ilude a si mesmo e não passa de um impostor.
7. Por outro lado, se uma pessoa sincera utiliza a mente para tentar controlar os sentidos ativos e passa então a praticar karma-yoga sem apego, ela é muito superior.
8. Executa teu dever prescrito, pois este procedimento é melhor do que não trabalhar. Sem trabalho, não se pode nem ao menos manter o corpo físico.
9. Deve-se realizar o trabalho como um sacrifício a Vishnu; caso contrário, o trabalho produz cativeiro neste mundo material. Portanto, ó filho de Kunti, executa teus deveres prescritos para a satisfação dEle, e desta forma sempre permanecerás livre do cativeiro.
10. No início da criação, o Senhor de todas as criaturas enviou muitas gerações de homens e semideuses, que deveriam dedicar-se a executar sacrifícios para Vishnu, e abençoou-os dizendo: “Sede felizes com este yajña (sacrifício) porque sua execução outorgar-vos-á tudo o que é desejável para viverdes com felicidade e alcançardes a liberação”.
11. Os semideuses, estando contentes com os sacrifícios, também vos agradarão, e assim, pela cooperação entre homens e semideuses, a prosperidade reinará para todos.
12. Cuidando das várias necessidades da vida, os semideuses, estando satisfeitos com a realização de sacrifício, suprirão todas as vossas necessidades. Mas aquele que desfruta destas dádivas sem oferecê-las aos semideuses como reconhecimento é certamente um ladrão.
13. Os devotos do Senhor libertam-se de todas as espécies de pecados porque comem alimento que primeiramente é oferecido como sacrifício. Outros, que preparam alimento para o próprio gozo dos sentidos, na verdade comem apenas pecado.
14. Todos os corpos vivos subsistem de grãos alimentícios, que são produzidos das chuvas. As chuvas são produzidas pela execução de sacrifício, e o sacrifício nasce dos deveres prescritos.
15. As atividades reguladas são prescritas nos Vedas, e os Vedas manifestam-se diretamente da Suprema Personalidade de Deus. Por conseguinte, a Transcendência onipenetrante situa-Se eternamente nos atos de sacrifício.
16. Meu querido Arjuna, aquele que, na vida humana, não segue esse ciclo de sacrifício estabelecido pelos Vedas certamente leva uma vida cheia de pecado. Vivendo só para a satisfação dos sentidos, tal pessoa vive em vão.
17. Mas para quem sente prazer no eu e utiliza a vida humana para buscar a auto-realização, satisfazendo-se apenas com o eu, ficando plenamente saciado – para ele não há dever.
18. Um homem auto-realizado não tem propósito a cumprir no desempenho de seus deveres prescritos, tampouco tem ele alguma razão para não executar tal trabalho. Nem tem ele necessidade alguma de depender de nenhum outro ser vivo.
19. Portanto, sem se apegar aos frutos das atividades, tem-se de agir por uma questão de dever, pois, trabalhando sem apego, alcança-se o Supremo.
20. Reis tais como Janaka alcançaram a perfeição com a simples execução dos deveres prescritos. Portanto, apenas para educar o povo em geral, deves executar teu trabalho.
21. Seja qual for a ação executada por um grande homem, os homens comuns seguem, e o mundo inteiro procura imitar todos os padrões que ele estabelece através de seus atos exemplares.
22. Ó filho de Pritha, não há trabalho prescrito para Mim dentro de todos os três sistemas planetários. Nem sinto falta de nada, nem tenho necessidade de obter algo – e mesmo assim ocupo-Me nos deveres prescritos.
23. Pois, se alguma vez Eu deixasse de ocupar-Me na cuidadosa execução dos deveres prescritos, ó Partha, todos os homens decerto seguiriam Meu caminho.
24. Se Eu não executasse os deveres prescritos, todos estes mundos seriam levados à ruína. Eu causaria a criação de população indesejada, e com isso Eu destruiria a paz de todos os seres vivos.
25. Assim como os ignorantes executam seus deveres com apego aos resultados, os eruditos também podem agir, mas sem apego, com o propósito de conduzir as pessoas para o caminho correto.
26. Para não perturbar as mentes dos homens ignorantes apegados aos resultados fruitivos dos deveres prescritos, o sábio não deve induzi-los a parar de trabalhar. Ao contrário, trabalhando com espírito de devoção, ele deve ocupá-los em todas as espécies de atividades para que pouco a pouco desenvolvam a consciência de Krishna.
27. Confusa, a alma espiritual que está sob a influência do ego falso julga-se a autora das atividades que, de fato, são executadas pelos três modos da natureza material.
28. Quem tem conhecimento da Verdade Absoluta, ó pessoa de braços poderosos, não se ocupa a serviço dos sentidos e do gozo dos sentidos, pois conhece bem as diferenças entre trabalho com devoção e trabalho em busca de resultados fruitivos.
29. Confundidos pelos modos da natureza material, os ignorantes ocupam-se plenamente em atividades materiais e tornam-se apegados. Mas os sábios não devem inquietá-los, embora estes deveres sejam inferiores por causa da falta de conhecimento daqueles que os executam.
30. Portanto, ó Arjuna, ofertando-Me todos os teus trabalhos, com pleno conhecimento de Mim, sem desejos de lucro, sem alegares ter alguma posse, e livre da letargia, luta.
31. Aqueles que cumprem seus deveres de acordo com Meus preceitos e que sem inveja seguem fielmente este ensinamento livram-se do cativeiro das ações fruitivas.
32.Mas aqueles que, por inveja, rejeitam estes ensinamentos e não os seguem devem ser considerados desprovidos de todo o conhecimento, enganados e malogrados em seus esforços pela perfeição.
33. Até mesmo um homem de conhecimento age segundo sua própria natureza, pois cada qual segue a natureza que adquiriu dos três modos. Que se pode conseguir com a repressão?
34. Há princípios que servem para regular o apego e a aversão relacionados com os sentidos e seus objetos. Ninguém deve ficar sob o controle desse apego e aversão, porque são obstáculos no caminho da auto-realização.
35. É muito melhor cumprir os próprios deveres prescritos, embora com defeito, do que executar com perfeição os deveres alheios. A destruição durante o cumprimento do próprio dever é melhor do que ocupar-se nos deveres alheios, pois seguir o caminho dos outros é perigoso.
36. Arjuna disse: Ó descendente de Vrishni, que impele alguém a atos pecaminosos, mesmo contra a sua vontade, como se ele agisse à força?
37. A Suprema Personalidade de Deus disse: É somente a luxúria, Arjuna, que nasce do contato com o modo material da paixão e mais tarde se transforma em ira, e que é o inimigo pecaminoso que tudo devora neste mundo.
38. Assim como a fumaça cobre o fogo, o pó cobre um espelho ou um ventre cobre um embrião, diferentes graus de luxúria cobrem o ser vivo.
39. Assim, a consciência pura da entidade viva sábia é coberta por seu eterno inimigo sob a forma de luxúria, que nunca é satisfeita e queima como o fogo.
40. Os sentidos, a mente e a inteligência são os lugares que servem de assento para esta luxúria. Através deles, a luxúria confunde o ser vivo e obscurece o verdadeiro conhecimento que ele possui.
41. Portanto, ó Arjuna, ó melhor dos Bharatas, desde o começo, refreia este grande símbolo do pecado (a luxúria), regulando os sentidos, e aniquila este destruidor do conhecimento e da auto-realização.
42. Os sentidos funcionais são superiores à matéria bruta; a mente é superior aos sentidos; por sua vez, a inteligência é mais elevada do que a mente; e ela (a alma) é superior à inteligência.
43. Assim, sabendo que é transcendental aos sentidos, à mente e à inteligência materiais, ó Arjuna de braços poderosos, a pessoa deve equilibrar a mente por meio de deliberada inteligência espiritual (consciência de Krishna) e assim – pela força espiritual – vencer este inimigo insaciável conhecido como luxúria.
Capítulo quatro:
O Conhecimento Transcendental
1. A Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, disse: Ensinei esta imperecível ciência da yoga ao deus do Sol, Vivasvan, e Vivasvan ensinou-a a Manu, o pai da humanidade, e Manu, por sua vez, ensinou-a a Iksvaku.
2. Esta ciência suprema foi então recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na dessa maneira. Porém, com o passar do tempo, a sucessão foi interrompida, e portanto a ciência como ela é parece ter-se perdido.
3. Esta antiquíssima ciência da relação com o Supremo é falada hoje a ti por Mim porque és Meu devoto bem como Meu amigo e podes portanto entender o mistério transcendental que há nesta ciência.
4. Arjuna disse: O deus do Sol, Vivasvan, nasceu antes de Ti. Como poderei entender que, no começo, ensinaste-lhe esta ciência?
5. A Personalidade de Deus disse: Tu e Eu já passamos por muitos e muitos nascimentos. Posso lembrar-Me de todos eles, mas tu não podes, ó subjugador do inimigo!
6. Embora Eu seja não nascido e Meu corpo transcendental jamais se deteriore, e embora Eu seja o Senhor de todas as entidades vivas, mesmo assim, em cada milênio Eu apareço sob Minha forma transcendental original.
7. Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e um aumento predominante da irreligião – neste momento Eu próprio desço.
8. Para libertar os piedosos e aniquilar os canalhas, bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu mesmo apareço, milênio após milênio.
9. Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.
10. Estando livres do apego, do medo e da ira, estando plenamente absortas em Mim e refugiando-se em Mim, muitas e muitas pessoas no passado purificaram-se através do conhecimento a respeito de Mim – e com isso todas alcançaram transcendental amor por Mim.
11. A todos Eu recompenso proporcionalmente ao grau de sua rendição a Mim. Ó filho de Pritha, em qualquer circunstância, todos seguem o Meu caminho.
12. Neste mundo, os homens desejam sucesso nas atividades fruitivas, e por isso adoram os semideuses. Rapidamente, é claro, os homens obtêm neste mundo os resultados do trabalho fruitivo.
13. Conforme os três modos da natureza material e o trabalho referente a eles, as quatro divisões da sociedade humana são criadas por Mim. E embora Eu seja o criador deste sistema, deves saber que, sendo Eu imutável, continuo como a pessoa que não age.
14. Não há trabalho que Me afete; tampouco Eu aspiro aos frutos da ação. Aquele que entende esta verdade sobre Mim também não se enreda nas reações do trabalho fruitivo.
15. Em tempos antigos, todas as almas liberadas agiram com esta compreensão acerca de Minha natureza transcendental. Portanto, deves executar teu dever, seguindo-lhes os passos. 16. Até mesmo os inteligentes ficam confusos em determinar o que é ação e o que é inação. Agora, passarei a explicar-te o que é ação, e conhecendo isto te libertarás de todo o infortúnio.
17. É dificílimo entender as complexidades da ação. Portanto, deve-se saber apropriadamente o que é ação, o que é ação proibida e o que é inação.
18. Quem vê inação na ação, e ação na inação, é inteligente entre os homens, e está na posição transcendental, embora ocupado em todas as espécies de atividades.
19. Tem conhecimento pleno quem, em cada esforço seu, não apresenta desejo de gozo dos sentidos. Os sábios dizem que tal pessoa é um trabalhador cujas reações do trabalho foram queimadas pelo fogo do conhecimento perfeito.
20. Abandonando todo o apego aos resultados de suas atividades, sempre satisfeito e independente, ele não executa nenhuma ação fruitiva, embora ocupado em todas as espécies de empreendimentos.
21. Tal homem de compreensão age com a mente e a inteligência sob perfeito controle, deixa de ter qualquer sentimento de propriedade por suas posses e age apenas para obter as necessidades mínimas da vida. Trabalhando assim, ele não é afetado por reações pecaminosas.
22. Aquele que se contenta com o ganho que vem automaticamente, que está livre de dualidade e não inveja, que é estável no sucesso e no fracasso, nunca se enreda, embora execute ações.
23. O trabalho do homem que não está apegado aos modos da natureza material e que está situado em pleno conhecimento transcendental imerge por completo na transcendência.
24. Quem se absorve por completo em consciência de Krishna com certeza alcançará o reino espiritual por causa de sua plena contribuição às atividades espirituais, cuja execução é absoluta e nelas tudo o que se oferece é da mesma natureza espiritual.
25. Alguns yogis adoram perfeitamente os semideuses, oferecendo-lhes diferentes sacrifícios, e alguns deles oferecem sacrifícios no fogo do Brahman Supremo.
26. Alguns (os brahmacharis verdadeiros) sacrificam a faculdade auditiva e os sentidos no fogo do controle mental; e outros (os chefes de família regulados) sacrificam os objetos dos sentidos no fogo dos sentidos.
27. Outros, que se interessam em obter a auto-realização através do controle da mente e dos sentidos, oferecem as funções de todos os sentidos e do alento vital como oblações no fogo da mente controlada.
28. Tendo feito votos estritos, alguns se iluminam sacrificando seus bens, e outros, executando austeridades rigorosas, praticando a yoga do misticismo óctuplo (astanga-yoga) ou estudando os Vedas para progredir no conhecimento transcendental.
29. E outros, que estão inclinados ao processo de restrição da respiração para permanecer em transe, praticam oferecendo no alento inspirado o movimento do alento expirado, e no alento expirado o alento inspirado, e assim acabam entrando em transe, suspendendo toda a respiração. Outros, restringindo o processo alimentar, oferecem como sacrifício o alento expirado neste mesmo alento.
30. Todos estes executores que sabem o significado do sacrifício purificam-se das reações pecaminosas, e, tendo saboreado o néctar dos resultados dos sacrifícios, avançam em direção à atmosfera eterna e suprema.
31. Ó melhor da dinastia Kuru, sem sacrifício a pessoa jamais pode viver feliz neste planeta ou nesta vida; que se dizer da próxima, então?
32. Os Vedas aprovam todos estes diferentes tipos de sacrifício, e todos eles surgem de diferentes classes de trabalho. Tu te libertarás ao conhecê-los assim.
33. Ó castigador do inimigo, o sacrifício executado com conhecimento é melhor do que o mero sacrifício dos bens materiais. Afinal de contas, ó filho de Pritha, todos os sacrifícios do trabalho culminam em conhecimento transcendental.
34. Tenta aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe perguntas com submissão e presta-lhe serviço. As almas auto-realizadas te podem transmitir conhecimento porque viram a verdade.
35. Tendo recebido verdadeiro conhecimento de uma alma auto-realizada, jamais voltarás a cair nessa ilusão, pois, com este conhecimento, verás que todos os seres vivos são apenas partes do Supremo, ou, em outras palavras, que eles são Meus.
36. Mesmo que sejas considerado o mais pecaminoso de todos os pecadores, quando estiveres situado no barco do conhecimento transcendental serás capaz de cruzar o oceano de misérias.
37. Assim como o fogo ardente transforma a lenha em cinzas, ó Arjuna, do mesmo modo, o fogo do conhecimento reduz a cinzas todas as reações às atividades materiais.
38. Neste mundo, não há nada tão sublime e puro como o conhecimento transcendental. Esse conhecimento é o fruto maduro de todo o misticismo. E aquele que se familiarizou com a prática do serviço devocional desfruta este conhecimento dentro de si no devido curso do tempo.
39. Um homem fiel que se dedica ao conhecimento transcendental e que subjuga seus sentidos está qualificado para conseguir este conhecimento, e, tendo-o alcançado, obtém rapidamente a paz espiritual suprema.
40. Mas as pessoas ignorantes e sem fé, que duvidam das escrituras reveladas, não alcançam a consciência de Deus; elas acabam caindo. Para a alma incrédula não há felicidade nem neste mundo nem no próximo.
41. Aquele que age em serviço devocional, renunciando aos frutos de suas ações, e cujas dúvidas foram destruídas pelo conhecimento transcendental, está de fato situado no eu. Assim, ele não está atado às reações do trabalho, ó conquistador de riquezas.
42. Portanto, as dúvidas que, por ignorância, surgiram em teu coração devem ser cortadas com a arma do conhecimento. Armado com a yoga, ó Bharata, levanta-te e luta.
Capítulo cinco
Karma-yoga, Ação em Consciência de Krishna
1. Arjuna disse: Ó Krishna, em primeiro lugar, me pedes que renuncie ao trabalho, e depois passas a recomendar o trabalho com devoção. Agora, por favor, dize-me definitivamente qual dos dois é mais benéfico!
2. A Personalidade de Deus respondeu: A renúncia ao trabalho e o trabalho em devoção são bons para obter a liberação. No entanto, entre os dois, o trabalho em serviço devocional é melhor do que a renúncia ao trabalho.
3. Sabe-se que é sempre renunciado aquele que não odeia nem deseja os frutos de suas atividades. Tal pessoa, livre de todas as dualidades, supera facilmente o cativeiro material e é inteiramente liberada, ó Arjuna de braços poderosos.
4. Só os ignorantes dizem que o serviço devocional (karma-yoga) é diferente do estudo analítico do mundo material (sankhya). Aqueles que são eruditos de verdade afirmam que quem segue com afinco um destes caminhos consegue os resultados de ambos.
5. Aquele que sabe que a posição alcançada por meio do estudo analítico também pode ser conseguida através do serviço devocional, e que portanto vê o estudo analítico e o serviço devocional como estando no mesmo nível, vê as coisas como elas são.
6. Ninguém pode ser feliz só por renunciar a todas as atividades sem se ocupar no serviço devocional ao Senhor. Mas quem é introspectivo, que se ocupa no serviço devocional, pode alcançar o Supremo sem demora.
13. Ao controlar sua natureza e renunciar mentalmente a todas as ações, o ser vivo corporificado reside feliz na cidade de nove portões (o corpo material), onde não trabalha nem faz com que se execute trabalho.
14. O espírito corporificado, senhor da cidade de seu corpo, não cria atividades, nem induz as pessoas a agir, nem cria os frutos da ação. Tudo isto é designado pelos modos da natureza material.
15. Tampouco o Senhor Supremo assume as atividades pecaminosas ou piedosas de alguém. No entanto, os seres corporificados ficam confusos por causa da ignorância que lhes cobre o verdadeiro conhecimento.
16. Quando, porém, a pessoa é iluminada com o conhecimento pelo qual a ignorância é destruída, então, seu conhecimento revela tudo, assim como o Sol ilumina tudo durante o dia.
17. Quando a inteligência, a mente, a fé e o refúgio de alguém estão todos fixos no Supremo, então, através do conhecimento pleno, ele purifica-se por completo dos receios e desse modo prossegue resoluto no caminho da liberação.
18. Os sábios humildes, em virtude do conhecimento verdadeiro, vêem com a mesma visão um brahmana erudito e cortês, uma vaca, um elefante, um cachorro e um comedor de cachorro (pária).
19. Aqueles cujas mentes estão estabelecidas em igualdade e equanimidade já subjugaram as condições de nascimento e morte. Eles são perfeitos como o Brahman, e desse modo já estão situados no Brahman.
20. Aquele que não se regozija ao conseguir algo agradável nem se lamenta ao obter algo desagradável, que é inteligente em assuntos relacionados ao eu, que não se confunde, e que conhece a ciência de Deus, já está situado na transcendência.
21. Semelhante pessoa liberada não se deixa atrair pelo prazer dos sentidos materiais, mas está sempre em transe, gozando o prazer interior. Desse modo, a pessoa auto-realizada sente felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo.
22. A pessoa inteligente não participa das fontes de misérias , que se devem ao contato com os sentidos materiais. Ó filho de Kunti, esses prazeres têm um começo e um fim, e por isso os sábios não se deleitam com eles.
23. Antes de abandonar o corpo atual, se alguém for capaz de tolerar os impulsos dos sentidos materiais e conter a força do desejo e da ira, ficará em situação privilegiada e será feliz neste mundo.
24. Aquele cuja felicidade é interior, que é ativo e se regozija dentro de si, e cujo objetivo volta-se para o seu próprio íntimo é de fato o místico perfeito. Ele liberta-se no Supremo e por fim alcança o Supremo.
25. Aqueles que estão além das dualidades que surgem das dúvidas, cujas mentes estão voltadas para si, que vivem atarefados, trabalhando para o bem-estar de todos os seres vivos, e que estão livres de todos os pecados libertam-se no Supremo.
26. Aqueles que estão livres da ira e de todos os desejos materiais, que são auto-realizados, autodisciplinados e empreendem um constante esforço em busca da perfeição, ficam garantidos de libertarem-se no Supremo num futuro muito próximo.
27-28. Repelindo todos os objetos sensoriais externos, mantendo os olhos e a visão concentrados entre as duas sobrancelhas, suspendendo dentro das narinas os alentos que entram e que saem, e assim controlando a mente, os sentidos e a inteligência, o transcendentalista que visa à liberação livra-se do desejo, do medo e da ira. Alguém que está sempre neste estado decerto é liberado.
29. Quem tem plena consciência de Mim, conhecendo-Me como o beneficiário último de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses, e o benfeitor e benquerente de todas as entidades vivas, alivia-se das dores e misérias materiais.
Capítulo seis
Dhyana-yoga
1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Aquele que não está apegado aos frutos de seu trabalho e que trabalha conforme sua obrigação está na ordem de vida renunciada e é um místico de verdade, e não aquele que não acende nenhum fogo nem cumpre dever algum.
2. Fica sabendo que aquilo que se chama renúncia é o mesmo que yoga, ou união com o Supremo, ó filho de Pandu, pois só pode tornar-se um yogi quem renuncia ao desejo de gozo dos sentidos.
3. Afirma-se que quem é neófito no sistema ióguico óctuplo recorre ao trabalho; mas quem já está elevado em yoga atua através da cessação de todas as atividades materiais.
4. Diz-se que alguém está elevado em yoga quando, tendo renunciado a todos os desejos materiais, não age em troca de gozo dos sentidos nem se ocupa em atividades fruitivas.
5. Com a ajuda de sua mente, a pessoa deve libertar-se, e não degradar-se. A mente é amiga da alma condicionada, e sua inimiga também.
6. Para aquele que conquistou a mente, a mente é o melhor dos amigos; mas para quem fracassou nesse empreendimento, sua mente continuará sendo seu maior inimigo.
7. Quem conquistou a mente já alcançou a Superalma, pois vive com tranquilidade. Para ele, felicidade e tristeza, calor e frio, honra e desonra é tudo o mesmo.
8. Diz-se que alguém está estabelecido em auto-realização e se chama um yogi (ou místico) quando está plenamente satisfeito em virtude do conhecimento e percepção adquiridos. Ele está situado em transcendência e é autocontrolado. Ele vê tudo – seixos, pedras ou ouro – como a mesma coisa.
9. Considera-se que tem maior avanço quem vê benquerentes honestos, benfeitores afetuosos, os neutros, os mediadores, os invejosos, amigos e inimigos, os piedosos e os pecadores – todos com mente igual.
10. O transcendentalista deve sempre ocupar seu corpo, mente e ego em atividades relacionadas com o Supremo; ele deve viver sozinho num lugar isolado e deve sempre ter todo o cuidado de controlar a mente. Ele deve estar livre de desejos e sentimentos de posse.
11-12. Para praticar yoga, é necessário dirigir-se a um lugar isolado e colocar grama kusha no chão e depois cobri-la com pele de veado e pano macio. O assento não deve ser nem muito alto nem muito baixo e deve estar situado num lugar sagrado. O yogi deve então sentar-se nele mui firmemente e praticar yoga para purificar o coração, controlando a mente, os sentidos e as atividades e fixando a mente num único ponto.
13-14. Deve-se manter o corpo, pescoço e cabeça eretos, conservando-os em linha reta, e deve-se olhar fixamente para a ponta do nariz. Assim, com a mente plácida e subjugada, sem medo, livre por completo da vida sexual, deve-se meditar em Mim dentro do coração e ver a Mim como a meta última da vida.
15. Praticando esse constante controle do corpo, da mente e das atividades, o transcendentalista místico, com sua mente regulada, alcança o reino de Deus através da cessação da existência material.
16. Não há possibilidade de alguém tornar-se yogi, ó Arjuna, se come em demasia ou muito pouco, se dorme demais ou não dorme o bastante.
17. Aquele que é regulado em seus hábitos de comer, dormir, divertir-se e trabalhar pode mitigar todas as dores materiais, praticando o sistema de yoga.
18. Quando o yogi, pela prática da yoga, disciplina suas atividades mentais e se situa na transcendência – desprovido de todos os desejos materiais –, diz-se que está bem estabelecido em yoga.
19. Assim como uma candeia não tremula num lugar sem vento, do mesmo modo, o transcendentalista, que tem a mente controlada, permanece sempre fixo em sua meditação no eu transcendental.
20-23. Na etapa de perfeição chamada transe, ou samadhi, a mente abstém-se por completo das atividades mentais materiais pela prática de yoga. Caracteriza esta perfeição o fato de se poder ver o eu com a mente pura e sentir sabor e regozijo no eu. Neste estado jubiloso, o yogi situa-se em felicidade transcendental ilimitada, percebida através de sentidos transcendentais. Nesse caso, ele jamais se afasta da verdade, e, ao obter isto, vê que não há ganho maior. Situando-se nessa posição, ele nunca se deixa abalar, mesmo em meio às maiores dificuldades. Esta é a verdadeira maneira de alguém livrar-se de todas as misérias surgidas do contato material.
24. É necessário ocupar-se na prática de yoga com determinação e fé, e não se desviar do caminho. Devem-se abandonar, sem exceção, todos os desejos materiais nascidos da especulação mental e desse modo controlar com a mente todos os sentidos por todos os lados.
25. Aos poucos, passo a passo, o yogi deve se situar em transe por meio da inteligência alimentada de convicção plena, e assim a mente deve fixar-se no eu apenas e não deve pensar em mais nada.
26. Sempre que a mente divague devido à sua natureza instável e inconstante, deve-se com certeza coibi-la e colocá-la sob o controle do eu.
27. O yogi cuja mente está fixa em Mim alcança deveras a mais elevada perfeição da felicidade transcendental. Ele está além do modo da paixão, percebe sua identidade qualitativa com o Supremo, e assim livra-se de todas as reações a atos passados.
28. Assim, o yogi autocontrolado, constantemente ocupado na prática de yoga, livra-se de toda a contaminação material e alcança a etapa mais elevada – a felicidade perfeita no transcendental serviço amoroso ao Senhor.
29. Um yogi de verdade Me observa em todos os seres e também vê todos os seres em Mim. De fato, a pessoa auto-realizada vê a Mim, o mesmíssimo Senhor Supremo, em toda parte.
30. Aquele que Me vê em toda parte e vê tudo em Mim jamais Me deixa, tampouco eu o deixo.
31. Semelhante yogi, que se ocupa no adorável serviço à Superalma, sabendo que Eu e a Superalma somos um, sempre permanece em Mim em todas as circunstâncias.
32. Yogi perfeito é aquele que, através da comparação com o seu próprio eu, vê a verdadeira igualdade de todos os seres, quer se sintam felizes ou infelizes, ó Arjuna!
33. Arjuna disse: Ó Madhusudana, o sistema de yoga que resumiste parece-me impraticável e inviável, pois a mente é inquieta e instável.
34. Pois a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte, ó Krishna, e parece-me que subjugá-la é mais difícil do que controlar o vento.
35. O Senhor Sri Krishna disse: Ó poderosíssimo filho de Kunti, é sem dúvida muito difícil refrear a mente inquieta, mas isso é possível pela prática adequada e pelo desapego.
36. Para alguém cuja mente é desenfreada, a auto-realização é tarefa difícil. Mas aquele cuja mente é controlada e que se empenha com meios apropriados com certeza terá sucesso. Esta é a Minha opinião.
37. Arjuna disse: Ó Krishna, qual é o destino do transcendentalista malogrado, que no começo adota com fé o processo da auto-realização, mas que mais tarde desiste devido à mentalidade mundana e desse modo acaba não alcançando a perfeição no misticismo?
38. Ó Krishna de braços poderosos, será que semelhante homem, que se afasta do caminho da transcendência, não estraga seu sucesso espiritual e material e sucumbe como uma nuvem destroçada, sem nenhuma posição em esfera alguma?
39. Esta é a minha dúvida, ó Krishna, e peço-Te que a suprimas por completo. À exceção de Ti, não se pode encontrar ninguém que possa dirimir esta dúvida.
40. A Suprema Personalidade de Deus disse: Filho de Pritha, um transcendentalista ocupado em atividades auspiciosas não sofre destruição nem neste mundo nem no mundo espiritual; quem faz o bem, Meu amigo, jamais é vencido pelo mal.
41. Após muitos e muitos anos de gozo nos planetas habitados por entidades vivas piedosas, o yogi malogrado nasce numa família de pessoas virtuosas ou numa família de rica aristocracia.
42. Ou (se fracassa após longa prática de yoga) ele nasce numa família de transcendentalistas que com certeza têm muita sabedoria. É claro que semelhante nascimento é raro neste mundo.
43. Obtendo esse nascimento, ele revive a consciência divina de sua vida anterior e volta a tentar o prosseguimento do seu avanço para conseguir sucesso completo, ó filho de Kuru.
44. Em virtude da consciência divina de sua vida anterior, ele automaticamente sente-se atraído aos princípios ióguicos – mesmo sem procurá-los. Esse transcendentalista inquisitivo sempre fica acima dos princípios ritualísticos das escrituras.
45. E quando com esforço sincero o yogi ocupa-se em continuar progredindo, limpando-se de todas as contaminações, então afinal atinge a meta suprema, alcançando a perfeição depois de praticar durante muitos e muitos nascimentos.
46. Um yogi é maior do que o asceta, maior do que o empirista e maior do que o trabalhador fruitivo. Portanto, ó Arjuna, em todas as circunstâncias, sê um yogi.
47. E de todos os yogis, aquele que tem muita fé e sempre se refugia em Mim, pensa em Mim dentro de si mesmo e Me presta transcendental serviço amoroso – é o mais intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos. Esta é a Minha opinião.
Capítulo sete
O Conhecimento Acerca do Absoluto
1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Agora presta atenção, ó filho de Pritha, enquanto te explico como é que, praticando yoga com plena consciência de Mim, com a mente apegada a Mim, podes ficar livre das dúvidas e conhecer-Me por completo.
2. Agora te declararei na íntegra este conhecimento, tanto fenomenal quanto numenal. Conhecendo isto, nada mais te restará saber.
3. Dentre muitos milhares de homens, talvez haja um que se esforce para obter perfeição, e dentre aqueles que alcançaram a perfeição, é difícil encontrar um que Me conheça de verdade.
4. Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego falso – juntos, todos estes oito elementos formam Minhas energias materiais separadas.
5. Além dessas, ó Arjuna de braços poderosos, existe outra energia, Minha energia superior, que consiste nas entidades vivas que exploram os recursos dessa natureza material inferior.
6. Todos os seres criados têm sua fonte nestas duas naturezas. Fica sabendo com toda a certeza que Eu sou a origem e a dissolução de tudo o que é material e de tudo o que é espiritual neste mundo.
7. Ó conquistador de riquezas, não há verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, como pérolas ensartadas num cordão.
8. Ó filho de Kunti, Eu sou o sabor da água, a luz do Sol e da Lua, a sílaba om nos mantras védicos; Eu sou o som no éter e a habilidade no homem.
9. Eu sou a fragrância original da terra e sou o calor no fogo. Eu sou a vida de tudo o que vive e sou as penitências de todos os ascetas.
10. Ó filho de Pritha, fica sabendo que Eu sou a semente da qual se originam todas as existências, sou a inteligência dos inteligentes e o poder de todos os homens poderosos.
11. Eu sou a força dos fortes, desprovida de paixão e desejo. Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos, ó Arjuna.
12. Fica sabendo que todos os estados de existência – sejam eles em bondade, paixão ou ignorância – manifestam-se por Minha energia. Em certo sentido, Eu sou tudo, mas Eu sou independente. Eu não estou sob a influência dos modos da natureza material, porque eles, ao contrário, estão dentro de Mim.
13. Iludido pelos três modos, o mundo inteiro não conhece a Mim, que estou acima dos modos e sou inesgotável.
14. Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la.
15. Os canalhas que são grosseiros e tolos, que são os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão e que compartilham da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.
16. Ó melhor entre os Bharatas, quatro classes de homens piedosos passam a Me prestar serviço devocional – o aflito, o que deseja riquezas, o inquisitivo e o que busca conhecer o Absoluto.
17. Destes, aquele que tem conhecimento pleno e está sempre ocupado em serviço devocional puro é o melhor. Pois Eu lhe sou muito querido, e ele Me é querido.
18. Todos esses devotos são sem dúvida almas magnânimas, mas aquele que cultiva conhecimento acerca de Mim, Eu o considero como sendo tal qual Eu mesmo. Ocupando-se em Me prestar serviço transcendental, ele com certeza Me alcançará, e esta é a meta mais elevada e perfeita.
19. Após muitos nascimentos e mortes, aquele que tem verdadeiro conhecimento rende-se a Mim, sabendo que sou a causa de todas as causas e de tudo o que existe. É muito raro encontrar semelhante grande alma.
20. Aqueles cuja inteligência foi roubada pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e prestam adoração através de determinadas regras e regulações que se coadunam com suas próprias naturezas.
21. Eu estou no coração de todos como a Superalma. Logo que alguém deseja adorar algum semideus, Eu fortifico sua fé para que ele possa se devotar a essa deidade específica.
22. Munido dessa fé, ele se empenha em adorar um semideus específico e realiza seus desejos. Mas na verdade, estes benefícios são concedidos apenas por Mim.
23. Homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos acabam alcançando Meu planeta supremo.
24. Homens sem inteligência, que não Me conhecem perfeitamente, pensam que Eu, a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, era impessoal e depois assumi esta personalidade. Devido a seu conhecimento escasso, eles não conhecem Minha natureza superior, que é imperecível e suprema.
25. Eu nunca Me manifesto aos tolos e aos menos inteligentes. Para eles, Eu estou coberto por Minha potência interna, e portanto eles não sabem que Eu sou não-nascido e infalível.
26. Ó Arjuna, como a Suprema Personalidade de Deus, sei tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está acontecendo no presente e tudo o que ainda vai acontecer. Conheço também todas as entidades vivas; mas a Mim ninguém Me conhece.
27. Ó descendente de Bharata, ó vencedor do inimigo, todas as entidades vivas nascem em ilusão, confundidas pelas dualidades surgidas do desejo e do ódio.
28. Aqueles que agiram piedosamente tanto nessa vida quanto em vidas passadas e cujas ações pecaminosas se erradicaram por completo livram-se da ilusão manifesta sob a forma de dualidades e ocupam-se em servir-Me com determinação.
29. Os homens inteligentes que buscam libertar-se da velhice e da morte refugiam-se em Mim, prestando serviço devocional. Eles de fato são Brahman porque conhecem inteiramente tudo sobre as atividades transcendentais.
30. Aqueles que estão em plena consciência de Mim, que sabem que Eu, o Senhor Supremo, sou o princípio governante da manifestação material, dos semideuses e de todos os métodos de sacrifício, podem, mesmo ao chegar a hora da morte, compreender e conhecer a Mim, a Suprema Personalidade de Deus.
Capítulo oito
Alcançando o Supremo
1. Arjuna perguntou: Ó meu Senhor, ó Pessoa Suprema, que é Brahman? Que é o eu? Que são atividades fruitivas? Que é esta manifestação material? E que são os semideuses? Por favor, explica-me isto.
2. Quem é o Senhor do sacrifício, e como Ele vive no corpo, ó Madhusudana? E como é que aqueles ocupados em serviço devocional podem conhecer-Te ao chegar a hora da morte?
3. Suprema Personalidade de Deus disse: A entidade viva transcendental e indestrutível chama-se Brahman, e sua natureza eterna chama-se adhyatma, o eu. A ação que desencadeia o desenvolvimento dos corpos materiais das entidades vivas chama-se karma, ou atividades fruitivas.
4. Ó melhor dos seres corporificados, a natureza física, que está constantemente mudando, chama-se adhibhuta (a manifestação material). A forma universal do Senhor, que inclui todos os semideuses, tais como o Sol e a Lua, chama-se adhidaiva. E Eu, o Senhor Supremo, representado como Superalma no coração de cada ser corporificado, sou chamado adhiyajña (o Senhor do sacrifício).
5. E todo aquele que, no fim de sua vida, abandone seu corpo, lembrando-se unicamente de Mim, no mesmo instante alcança Minha natureza. Quanto a isto não há dúvidas.
6. Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kunti, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente.
7. Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim sob a forma de Krishna e ao mesmo tempo cumprir teu dever prescrito de lutar. Com tuas atividades dedicadas a Mim e tua mente e inteligência fixas em Mim, não há dúvida de que Me alcançarás.
8. Aquele que, meditando em Mim como a Suprema Personalidade de Deus, sempre ocupa sua mente em lembrar-se de Mim e não se desvia do caminho, ele, ó Partha, com certeza Me alcança.
9. Deve-se meditar na Pessoa Suprema como aquele que sabe tudo, como aquele que é o mais velho, que é o controlador, que é menor do que o menor, que é o mantenedor de tudo, que está além de toda a concepção material, que é inconcebível e que é sempre uma pessoa. Ele é luminoso como o Sol e é transcendental, situado além desta natureza material.
10. Aquele que, ao chegar a hora da morte, fixar seu ar vital entre as sobrancelhas e, pela força da yoga, com mente indesviável, ocupar-se em lembrar do Senhor Supremo com devoção plena, com certeza alcançará a Suprema Personalidade de Deus.
11. As pessoas que são versadas nos Vedas, que pronunciam o omkara e que são grandes sábios na ordem renunciada entram no Brahman. Desejando esta perfeição, deve-se praticar o celibato. Passarei então a explicar-te sucintamente este processo pelo qual alguém pode obter a salvação.
12. A yoga consiste no desapego de todas as ocupações sensuais. Para estabelecer-se em yoga deve-se fechar todas as portas dos sentidos e fixar a mente no coração e o ar vital no topo da cabeça.
13. Após situar-se nesta prática de yoga e vibrar a sílaba om, a suprema combinação de letras, se o yogi pensar na Suprema Personalidade de Deus e abandonar o corpo, com certeza alcançará os planetas espirituais.
14. Para alguém cuja lembrança é sempre fixa em Mim, Eu sou fácil de obter, ó filho de Pritha, por causa de sua constante ocupação em serviço devocional.
15. Após Me alcançarem, as grandes almas, que são yogis em devoção, jamais retornam a este mundo temporário, que é cheio de misérias, porque obtiveram a perfeição máxima. 16. Partindo do planeta mais elevado do mundo material e indo até o mais baixo, todos são lugares de miséria, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança Minha morada, ó filho de Kunti, jamais volta a nascer.
17. Pelo cálculo humano, quando se soma um total de mil eras, obtém-se a duração de um dia de Brahma. E esta é também a duração de sua noite.
18. No início do dia de Brahma, todos os seres vivos se manifestam a partir do estado imanifesto, e depois, quando cai a noite, voltam a fundir-se no imanifesto.
19. Repetidas vezes, quando chega o dia de Brahma, todos os seres vivos passam a existir, e com a chegada de sua noite, eles são desamparadamente aniquilados.
20. Entretanto, há outra natureza imanifesta, que é eterna e transcendental a esta matéria manifesta e imanifesta. Ela é suprema e jamais é aniquilada. Quando todo este mundo é aniquilado, aquela região permanece inalterada.
21. Aquilo que os vedantistas descrevem como imanifesto e infalível, aquilo que é conhecido como o destino supremo, aquele lugar do qual jamais se retorna após alcançá-lo – essa é Minha morada suprema.
22.A Suprema Personalidade de Deus, que é maior do que tudo, é alcançado pela devoção imaculada. Embora presente em Sua morada, Ele é onipenetrante, e tudo está situado dentro dEle.
23. Ó melhor dos Bharatas, passarei agora a explicar-te os diferentes momentos em que, partindo deste mundo, o yogi retorna ou não.
24. Aqueles que conhecem o Brahman Supremo alcançam este Supremo, partindo do mundo durante a influência do deus do fogo, na luz, num momento auspicioso do dia, durante a quinzena da lua crescente ou durante os seis meses em que o Sol viaja pelo Norte.
25. O místico que se vai deste mundo durante a fumaça, à noite, a quinzena da lua minguante ou os seis meses que o Sol passa para o Sul, alcança o planeta Lua, mas acaba voltando.
26. Segundo a opinião védica, há duas circunstâncias em que se pode partir deste mundo – na luz e na escuridão. Quando parte na luz, a pessoa não volta; mas quando parte na escuridão, ela retorna.
27. Embora conheçam estes caminhos, ó Arjuna, os devotos nunca se confundem. Portanto, fixa-te sempre na devoção.
28. Aquele que aceita o caminho do serviço devocional não se priva dos resultados obtidos por alguém que estuda os Vedas, executa sacrifícios austeros, dá caridade ou dedica-se a atividades filosóficas e fruitivas. Pelo simples fato de executar serviço devocional, ele consegue tudo isto, e por fim alcança a suprema morada eterna.
Capítulo nove
O Conhecimento Mais Confidencial
1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, porque nunca Me invejas, transmitirei a ti este ensinamento e compreensão muito confidenciais. Passando a conhecê-los, ficarás livre das misérias encontradas na existência material.
2. Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro, e por conceder a percepção direta do eu, é a perfeição da religião. Ele é eterno e é agradável praticá-lo.
3. Aqueles que não são fiéis neste serviço devocional não podem Me alcançar, ó subjugador dos inimigos. Por isso, eles voltam a trilhar o caminho de nascimentos e mortes neste mundo material.
4. Sob Minha forma imanifesta, Eu penetro este Universo inteiro. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.
5. E mesmo assim, os elementos criados não repousam em Mim. Observa Minha opulência mística! Embora Eu seja o mantenedor de todas as entidades vivas e embora esteja em toda parte, não faço parte desta manifestação cósmica, pois Meu Eu é a própria fonte da criação.
6. Compreende que, assim como o vento poderoso, que sopra em toda parte, sempre permanece no céu, todos os seres criados repousam em Mim.
7. Ó filho de Kunti, no final do milênio todas as manifestações materiais entram em Minha natureza, e no começo de outro milênio, por Minha potência, Eu volto a criá-las.
8. Toda a ordem cósmica está sujeita a Mim. Sob Minha vontade, ela repetidas vezes manifesta-se automaticamente, e no final ela é aniquilada sob Minha vontade.
9. Ó Dhanañjaya, nenhum desses trabalhos pode atar-Me. Eu estou sempre desapegado de todas essas atividades materiais como se estivesse neutro.
10. Esta natureza material, que é uma de Minhas energias, funciona sob Minha direção, ó filho de Kunti, produzindo todos os seres móveis e inertes. Obedecendo-lhe ao comando, esta manifestação é criada e aniquilada repetidas vezes.
11. Os tolos zombam de Mim quando desço sob forma humana. Eles não conhecem Minha natureza transcendental como o Supremo Senhor de tudo o que existe.
12. Aqueles que estão assim perplexos deixam-se atrair por opiniões demoníacas e ateístas. Estando mergulhados nessa ilusão, suas esperanças de liberação, suas atividades fruitivas e seu cultivo de conhecimento são todos destroçados.
13. Ó filho de Pritha, aqueles que não se iludem, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Eles se ocupam completamente em serviço devocional porque sabem que Eu sou a original e inexaurível Suprema Personalidade de Deus.
14. Sempre cantando Minhas glórias, esforçando-se com muita determinação, prostrando-se diante de Mim, estas grandes almas adoram-Me perpetuamente com devoção.
15. Outros, que se ocupam em sacrifício por meio do cultivo do conhecimento, adoram o Senhor Supremo como o único e inigualável, como aquele que Se dividiu em muitos, e na forma universal.
16. Mas Eu é que sou o ritual, sou o sacrifício, a oferenda aos ancestrais, a erva medicinal, o canto transcendental. Sou a manteiga, o fogo e a oferenda.
17. Eu sou o pai deste Universo, a mãe, o sustentáculo e o avô. Sou o objeto do conhecimento, o purificador e a sílaba om. Também sou o Rig, o Sama e o Yajur Vedas.
18. Eu sou a meta, o sustentador, o senhor, a testemunha, a morada, o refúgio e o amigo mais querido. Sou a criação e a aniquilação, a base de tudo, o lugar onde se descansa e a semente eterna.
19. Ó Arjuna, Eu forneço calor e retenho e envio a chuva. Eu sou a imortalidade e sou também a morte personificada. Tanto o espírito quanto a matéria estão em Mim.
20. Aqueles que, buscando os planetas celestiais, estudam os Vedas e bebem suco de soma, adoram-Me indiretamente. Purificados de reações pecaminosas, eles nascem no piedoso planeta celestial de Indra, onde gozam de prazeres divinos.
21. Após desfrutarem desse imenso prazer celestial dos sentidos e tendo esgotado os resultados de suas atividades piedosas, eles regressam a este planeta mortal. Logo, aqueles que buscam o prazer dos sentidos sujeitando-se aos princípios dos três Vedas conseguem apenas repetidos nascimentos e mortes.
22. Mas aqueles que sempre Me adoram com devoção exclusiva, meditando em Minha forma transcendental – a eles Eu trago o que lhes falta e preservo o que têm.
23. Aqueles que são devotos de outros deuses e que os adoram com fé na verdade adoram apenas a Mim, ó filho de Kunti, mas não Me prestam a adoração correta.
24. Eu sou o único desfrutador e Senhor de todos os sacrifícios. Portanto, aqueles que não reconhecem Minha verdadeira natureza transcendental acabam caindo.
25. Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses; aqueles que adoram os ancestrais irão ter com os ancestrais; aqueles que adoram fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres; e aqueles que Me adoram viverão comigo.
26. Se alguém Me oferecer, com amor e devoção, folhas, flores, frutas ou água, Eu as aceitarei.
27. Tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que ofereceres ou deres, e quaisquer austeridades que executares – faze isto, ó filho de Kunti, como uma oferenda a Mim.
28. Desse modo, ficarás livre do cativeiro do trabalho e de seus resultados auspiciosos e inauspiciosos. Com a mente fixa em Mim neste princípio de renúncia, libertar-te-ás e virás a Mim.
29. Não invejo ninguém, tampouco sou parcial com alguém. Sou igual com todos. Porém, todo aquele que Me preste serviço com devoção é um amigo, está em Mim, e Eu também sou seu amigo.
30. Mesmo que alguém cometa ações das mais abomináveis, se estiver ocupado em serviço devocional deve ser considerado santo porque está devidamente situado em sua determinação.
31. Ele logo se torna virtuoso e alcança paz duradoura. Ó filho de Kunti, declara ousadamente que Meu devoto jamais perece.
32. Ó filho de Pritha, mesmo as mulheres que sejam de nascimento inferior, os vaishyas (comerciantes), bem como os sudras (trabalhadores braçais), todos os que se refugiam em Mim podem alcançar o destino supremo.
33 Então, isto tem muito maior validade para os brahmanas virtuosos, os devotos e os reis santos. Portanto, como vieste a este miserável mundo temporário, ocupa-te em Me prestar serviço amoroso.
34. Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e Me adora. Estando absorto por completo em Mim, com certeza virás a Mim.
Capítulo dez
A Opulência do Absoluto
1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Volta a ouvir, ó Arjuna de braços poderosos. Porque és Meu querido amigo, para o teu benefício continuarei dirigindo a palavra a ti, transmitindo um conhecimento superior a tudo o que já expliquei.
2. Nem as hostes de semideuses nem os grandes sábios conhecem Minha origem ou opulências, pois, em todos os aspectos, Eu sou a fonte dos semideuses e dos sábios.
3. Quem Me conhece como o não-nascido, como aquele que não tem começo, como o Supremo Senhor de todos os mundos – só este, que, entre os homens, não se deixa iludir, está livre de todos os pecados.
4-5. Inteligência, conhecimento, estar livre da dúvida e da ilusão, clemência, veracidade, controle dos sentidos, controle da mente, felicidade e aflição, nascimento, morte, medo, destemor, não-violência, equanimidade, satisfação, austeridade, caridade, fama e infâmia – todas essas várias qualidades dos seres vivos são criadas apenas por Mim.
6. Os sete grandes sábios e, mais antigos do que eles, os quatro outros grandes sábios e os Manus (progenitores da humanidade) vêm de Mim, nascidos de Minha mente, e todos os seres vivos que povoam os vários planetas descendem deles.
7. Quem, de fato, está convencido desta Minha opulência e poder místico ocupa-se em serviço devocional imaculado; quanto a isto, não há dúvida.
8. Eu sou a fonte de todos os mundos materiais e espirituais. Tudo emana de Mim. Os sábios que conhecem isto perfeitamente ocupam-se em Meu serviço devocional e adoram-Me de todo o coração.
9. Os pensamentos de Meus devotos puros residem em Mim, suas vidas são plenamente devotadas a Meu serviço, e eles obtêm grande satisfação e bem-aventurança sempre se iluminando uns aos outros e conversando sobre Mim.
10. Àqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim.
11. Para lhes mostrar misericórdia especial, Eu, residindo em seus corações, destruo com a luz brilhante do conhecimento a escuridão nascida da ignorância.
12-13. Arjuna disse: És a Suprema Personalidade de Deus, a morada última, o mais puro, a Verdade Absoluta. És a pessoa original, eterna e transcendental, o não-nascido, o maior. Todos os grandes sábios, tais como Narada, Asita, Devala e Vyasa, confirmam esta verdade referente a Ti, e agora Tu mesmo a declaras para mim.
14. Ó Krishna, aceito totalmente como verdade tudo o que me disseste. Nem os semideuses nem os demônios, ó Senhor, podem compreender Tua personalidade.
15. Na verdade, só Tu Te conheces através de Tua potência interna, ó Pessoa Suprema, origem de tudo, Senhor de todos os seres, Deus dos deuses, Senhor do Universo!
16. Por favor, descreve-me Tuas opulências divinas com as quais penetras todos esses mundos.
17. Ó Krishna, ó místico supremo, como devo pensar constantemente em Ti, e como devo conhecer-Te? Quais as Tuas várias formas que devem ser lembradas, ó Suprema Personalidade de Deus?
18. Ó Janardana, por favor, volta a descrever em detalhes o poder místico de Tuas opulências. Nunca me canso de ouvir sobre Ti, pois, quanto mais ouço, mais quero saborear o néctar de Tuas palavras.
19. A Suprema Personalidade de Deus disse: Sim, Eu te falarei sobre Minhas manifestações esplendorosas, mas só sobre aquelas que são preeminentes, ó Arjuna, pois Minha opulência é ilimitada.
20. Eu sou a Superalma, ó Arjuna, situado nos corações de todas as entidades vivas. Eu sou o princípio, o meio e o fim de todos os seres.
21. Entre os Adityas, sou Vishnu; entre as luzes, sou o Sol radiante; entre os Maruts, sou Marici; e entre as estrelas, sou a Lua.
22. Dos Vedas, sou o Sama Veda; dos semideuses, sou Indra, o rei dos céus; dos sentidos, sou a mente; e nos seres vivos, sou a força viva (consciência).
23. De todos os Rudras, sou o Senhor Shiva; dos Yakshas e Rakshasas, sou o senhor da riqueza (Kuvera); dos Vasus, sou o fogo (Agni); e das montanhas, sou Meru.
24. Dos sacerdotes, ó Arjuna, fica sabendo que sou o principal, Brihaspati. Dos generais, sou Kartikeya, e dos corpos de água, sou o oceano.
25. Dos grandes sábios, sou Bhrigu; das vibrações, sou o om transcendental. Dos sacrifícios, sou o cantar dos santos nomes (japa), e dos objetos inertes, sou os Himalaias.
26. De todas as árvores, sou a figueira-da-bengala; e dos sábios entre os semideuses, sou Narada. Dos Gandharvas, sou Citraratha, e entre os seres perfeitos, sou o sábio Kapila.
27. Dos cavalos, fica sabendo que sou Ucchaishrava, produzido durante a batedura do oceano quando se queria obter néctar. Dos elefantes imponentes, sou Airavata; e entre os homens, sou o monarca.
28. Das armas sou o raio; entre as vacas sou a surabhi. Das causas que fomentam a procriação, sou Kandarpa, o deus do amor, e das serpentes, sou Vasuki.
29. Das Nagas de muitos capelos, sou Ananta, e entre os seres aquáticos, sou o semideus Varuna. Dos ancestrais que partiram sou Aryama, e entre aqueles que impõem a lei, sou Yama, o senhor da morte.
30. Entre os demônios Daityas, sou o devotado Prahlada; entre os subjugadores, sou o tempo; entre os animais selvagens, sou o leão; e entre as aves, sou Garuda.
31. Dos purificadores, sou o vento; dos manejadores de armas, sou Rama; dos peixes, sou o tubarão; e dos rios que correm, sou o Ganges.
32. De todas as criações, sou o começo, o fim e também o meio, ó Arjuna. De todas as ciências, sou a ciência espiritual do eu, e entre os lógicos, sou a verdade conclusiva.
33. Das letras, sou a letra A, e entre as palavras compostas, sou o composto dual. Sou também o tempo inexaurível, e dos criadores, sou Brahma.
34. Eu sou a morte que tudo devora e sou o princípio encarregado de gerar tudo o que vai existir. Entre as mulheres, sou a fama, a fortuna, a linguagem afável, a memória, a inteligência, a firmeza e a paciência.
35. Dos hinos do Sama Veda, sou o Brihat-sama, e da poesia, sou o Gayatri. Dos meses, sou margasirsha (novembro-dezembro), e das estações, sou a primavera florida.
36. Sou também a jogatina em que se fazem trapaças, e do esplêndido, sou o esplendor. Eu sou a vitória, a aventura e a força dos fortes.
37. Dos descendentes de Vrishni, sou Vasudeva, e dos Pandavas, sou Arjuna. Dos sábios, sou Vyasa, e entre os grandes pensadores, sou Usana.
38. Dentre todos os meios que reprimem a ilegalidade, sou o castigo, e daqueles processos que visam à vitória, sou a moralidade. Das coisas secretas, sou o silêncio, e dos sábios, sou a sabedoria.
39. Ademais, ó Arjuna, sou a semente geradora de todas as existências. Não existe ser algum – móvel ou inerte – que possa existir sem Mim.
40. Ó poderoso vencedor dos inimigos, Minhas manifestações divinas nunca chegam ao fim. O que te disse é apenas um mero indício de Minhas opulências infinitas.
41. Fica sabendo que todas as criações opulentas, belas e gloriosas emanam de uma mera centelha do Meu esplendor.
42. Mas qual a necessidade, Arjuna, de todo esse conhecimento minucioso? Com um simples fragmento de Mim mesmo, Eu penetro e sustento todo este Universo.
Capítulo onze
A Forma Universal
1. Arjuna disse: pelo fato de eu ter ouvido as instruções sobre estes assuntos espirituais muito confidenciais que gentilmente me transmitiste, minha ilusão acaba de ser dirimida.
2. Ó pessoa de olhos de lótus, eu ouvi enquanto falavas pormenorizadamente sobre o aparecimento e o desaparecimento de todas as entidades vivas e passei a entender Tuas glórias inexauríveis.
3. Ó maior de todas as personalidades, ó forma suprema, embora estejas diante de mim em Tua posição verdadeira, como Tu mesmo Te descreveste, desejo ver como entraste nesta manifestação cósmica. Quero ver esta Tua forma.
4. Se achas que sou capaz de contemplar Tua forma cósmica, ó meu Senhor, ó mestre de todo o poder místico, então, mostra-me por favor este ilimitado Eu universal.
5. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, ó filho de Pritha, vê então Minhas opulências, constituídas de centenas de milhares de variadas formas divinas e multicoloridas.
6. Ó melhor dos Bharatas, vê aqui as diferentes manifestações dos Adityas, Vasus, Rudras, Asvini-kumaras e todos os outros semideuses. Contempla as muitas coisas maravilhosas que ninguém jamais viu nem ouviu.
7. Ó Arjuna, tudo o que quiseres ver, contempla imediatamente neste Meu corpo! Esta forma universal pode mostrar-te tudo o que agora desejes ver e tudo o que queiras ver no futuro. Todas as coisas – móveis e inertes – estão aqui completamente, num só lugar.
8. Mas não Me podes ver com teus olhos atuais. Por isso, Eu te dou olhos divinos. Observa Minha opulência mística!
9. Sañjaya disse; Ó rei, tendo falado essas palavras, o Supremo Senhor de todo o poder místico, a Personalidade de Deus, mostrou a Arjuna a forma universal.
10-11. Arjuna viu naquela forma universal bocas ilimitadas, olhos ilimitados e maravilhosas visões ilimitadas. A forma estava decorada com muitos ornamentos celestiais e portava em riste muitas armas divinas. Ele usava guirlandas e roupas celestiais, e muitas essências divinas untavam o Seu corpo. Tudo era maravilhoso, brilhante, ilimitado e não parava de expandir-se.
12. Se centenas de milhares de sóis nascessem ao mesmo tempo no céu, talvez seu resplendor pudesse assemelhar-se à refulgência dessa forma universal da Pessoa Suprema.
13. Nesse momento, Arjuna pôde ver na forma universal do Senhor as expansões ilimitadas do Universo situadas em um só lugar, embora tenham sofrido muitos e muitos milhares de divisões.
14. Então, perplexo e atônito, com os pêlos arrepiados, Arjuna inclinou a cabeça para oferecer reverências e, de mãos postas, começou a orar ao Senhor Supremo.
15. Arjuna disse: Meu querido Senhor Krishna, vejo reunidos em Teu corpo todos os semideuses e várias outras entidades vivas. Vejo Brahma sentado na flor de lótus, e vejo o Senhor Shiva e todos os sábios e as serpentes divinas.
16. Ó Senhor do Universo, ó forma universal, vejo em Teu corpo muitos e muitos braços, ventres, bocas e olhos, expandidos por toda a parte, sem limite. Em Ti, não vejo começo, meio nem fim.
17. É difícil ver Tua forma por causa de Tua refulgência deslumbrante e onidirecional como o fogo ardente ou o imensurável resplendor do sol. Entretanto, com toda aparte vejo esta forma reluzente, adornada com várias coroas, maças e discos.
18. És o objetivo primordial supremo, o lugar definitivo que serve de repouso para todo o Universo. És inesgotável e o mais antigo. És o mantenedor da religião eterna, a Personalidade de Deus. Esta é a minha opinião.
19. Não tens origem, meio nem fim. Tua glória é ilimitada. Tens inúmeros braços, e o Sol e a Lua são Teus olhos. Vejo o fogo ardente saindo de Tua boca, e queimas todo este Universo com o Teu próprio resplendor.
20. Embora sejas um, Te expandes por todo o céu, planetas e espaço intermediário. Ó grande pessoa, vendo esta maravilhosa e terrível forma, todos os sistemas planetários ficam perturbados.
21. Todas as hostes de semideuses estão se rendendo a Ti e entrando em Ti. Alguns deles, muito atemorizados, estão de mãos postas, oferecendo orações. Hostes de grandes sábios e seres perfeitos, bradando “Que haja paz”, estão orando a Ti, cantando os hinos védicos.
22. Todas as várias manifestações do Senhor Shiva, os Adityas, os Vasus, os Sadhyas, os Visvadevas, os dois Asvinis, os Maruts, os antepassados, os Gandharvas, os Yakshas, os Asuras e os semideuses perfeitos estão Te contemplando com admiração.
23. Ó pessoas de braços poderosos, todos os planetas e seus semideuses estão perturbados ao verem Tua grande forma, com Teus vários rostos, olhos, braços, coxas, pernas, ventres e Teus vários dentes terríveis; e assim como eles estão perturbados, eu também estou.
24. Ó Vishnu onipenetrante, ao Te ver com Tuas muitas cores resplandecentes tocando o céu, Tuas bocas escancaradas e Teus grandes olhos reluzentes, minha mente fica perturbada pelo medo. Já não consigo manter minha firmeza ou equilíbrio mental.
25. Ó senhor dos senhores, ó refúgio dos mundos, por favor, conceda-me Tua graça. Não consigo manter o equilíbrio, vendo esses Teus rostos resplandecentes, parecidos com a morte, e esses Teus dentes medonhos. Em todas as direções sinto-me confuso.
26-27. Todos os filhos de Dhritarastra, juntamente com os reis que se aliaram a eles, bem como Bhisma, Drona e Karna – e nossos principais soldados também – estão precipitando-se em direção a Tuas bocas amedrontadoras. E vejo algumas pessoas presas com as cabeças esmagadas entre Teus dentes. 28. Assim como as muitas ondas dos rios desembocam no oceano, do mesmo modo, todos esses grandes guerreiros entram incandescentes em Tuas bocas.
29. Vejo todas as pessoas disparando precipitadamente em direção às Tuas bocas, como mariposas que são destruídas quando se lançam no fogo ardente.
30. Ó Vishnu, vejo-Te, com Tuas bocas flamejantes, devorando todas as pessoas de todos os lados. Cobrindo todo o Universo com Tua refulgência, Tu Te manifesta com raios terríveis e abrasadores.
31. Ó Senhor dos senhores, cuja forma é tão aterradora, por favor, diga-me quem és. Ofereço-Te minhas reverências; por favor, sê benevolente comigo. És o Senhor primordial. Quero conhecer-Te, pois não sei qual é a Tua missão.
32. O Bem-aventurado Senhor disse: Eu sou o tempo, o grande destruidor dos mundos, e vim aqui para destruir todas as pessoas. Excetuando vós (os Pandavas), aqui, todos os soldados de ambos os lados serão mortos.
33. Portanto, levanta-te. Prepara-te para lutar e conquistar a glória. Vence teus inimigos e desfruta de um reino próspero. Por Meu arranjo, eles já estão mortos, e tu, ó Savyasacin, és apenas um instrumento na luta.
34. Drona, Bhisma, Jayadratha, Karna e outros grandes guerreiros já foram destruídos por Mim. Portanto, mata-os e não fiques perturbado. Simplesmente luta, e derrotarás teus inimigos na batalha.
35. Sañjaya disse a Dhritarastra: Ó rei, depois de ouvir estas palavras faladas pela Suprema Personalidade de Deus, Arjuna trêmulo e de mãos postas, ofereceu repetidas reverências. Com voz balbuciante, ele estava amedrontado quando dirigiu ao Senhor Krishna as seguintes palavras.
36. Arjuna disse: Ó Senhor dos sentidos, o mundo se regozija ao ouvir Teu nome, e assim todos se apegam a Ti. Embora os seres perfeitos Te ofereçam suas respeitosas homenagens, os demônios têm medo, e fogem de um lado para o outro. Tudo isto se faz de forma justa.
37. Ó pessoa grandiosa, maior até mesmo que Brahma, és o criador original. Por que então deveriam eles furtar-se a oferecer suas respeitosas reverências a Ti? Ó ilimitado, Deus dos deuses, refúgio do Universo! És a fonte invencível, a causa de todas as causas, transcendental a esta manifestação material.
38. És a Personalidade de Deus original, o mais antigo, o santuário definitivo deste mundo cósmico manifestado. És o conhecedor de tudo e és tudo o que é cognoscível. És o refúgio supremo, situado acima dos modos materiais. Ó forma ilimitada! Penetras toda esta manifestação cósmica!
39. És o ar e és o controlador supremo! És o fogo, a água e a Lua! És Brahma, a primeira criatura viva e és o bisavô. Portanto, faço questão de oferecer-Te mil vezes minhas respeitosas reverências, e volto a oferecê-las vezes e mais vezes.
40. Ofereço-Te reverências de frente, de trás e de todos os lados! Ó poder incomensurável, és o Senhor cujo poder não conhece limites! És onipenetrante e, portanto, és tudo!
41-42. Colocando-Te na posição de amigo, sem sequer conhecer Tuas glórias, dirigi-me a Ti com as seguintes palavras imprudentes: “Ó Krishna”, “Ó Yadava”, “Ó meu amigo”. Por favor, perdoa tudo o que eu possa ter feito por loucura ou por amor. Quantas vezes Te desonrei, gracejando enquanto nos descontraíamos, deitávamos na mesma cama, sentávamos ou comíamos juntos, às vezes a sós e outras vezes diante de muitos amigos. Ó infalível, por favor, perdoa todas essas minhas ofensas!
43. És o pai desta manifestação cósmica completa, do móvel e do inerte. És o seu líder adorável, o mestre espiritual supremo. Ninguém é igual a Ti, e tampouco pode alguém ser uno contigo. Como então poderia haver alguém dentro os três mundos maior do que Tu, ó Senhor de poder imensurável?
44. És o Senhor Supremo, que deve ser adorado por todos os seres vivos. Então, eu me prostro para Te oferecer minhas respeitosas reverências e pedir Tua misericórdia. Assim como o pai tolera a insolência de seu filho, ou um amigo tolera a impertinência do amigo, ou uma esposa tolera a familiaridade de seu parceiro, por favor, tolera os erros que acaso eu tenha cometido contra Ti.
45. Após ver esta forma universal, que jamais havia visto, sinto-me satisfeito, mas ao mesmo tempo minha mente está perturbada pelo medo. Por isso, por favor, concede-me Tua graça e torna a revelar Tua forma como a Suprema Personalidade de Deus, ó Senhor dos senhores, ó morada do Universo.
46. Ó forma universal, ó Senhor de mil braços, desejo ver-Te em Tua forma de quatro braços, com elmo na cabeça e portando maça, disco, búzio e flor de lótus em Tuas mãos. Almejo ver essa Tua forma.
47. A Suprema Personalidade de Deus disse; Meu querido Arjuna, com prazer te mostrei, através de Minha potência interna, esta forma universal suprema. Dentro do mundo material, antes de ti, ninguém jamais viu esta forma primordial, ilimitada e plena de refulgência deslumbrante.
48. Ó melhor dos guerreiros Kurus, antes de ti, ninguém jamais vira esta Minha forma universal, pois nem através do estudo dos Vedas, da execução de sacrifícios, da caridade, de atividades piedosas ou de rigorosas penitências, posso Eu ser visto sob esta forma no mundo material.
49. Ficaste perturbado e confuso ao ver este Meu aspecto terrífico. Agora basta. Meu devoto, volta a livrar-te de toda a perturbação. Com a mente tranqüila podes então ver forma que desejas.
50. Sañjaya disse a Dhritarastra: A Suprema Personalidade de Deus, Krishna, tendo falado essas palavras a Arjuna, manifestou Sua verdadeira forma de quatro braços e por fim mostrou Sua forma de dois braços, encorajando assim o amedrontado Arjuna.
51. Ao ver Krishna em Sua forma original, Arjuna, então, disse; Ó Janardana, gora que vejo esta forma aparentemente humana e que possui tamanha beleza, minha mente está tranqüila e reassumi minha natureza original.
52. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, esta Minha forma que agora vês é muito difícil de contemplar. Até mesmo os semideuses sempre buscam a oportunidade de ver esta forma, que é tão querida.
53. A forma que vês com teus olhos transcendentais não pode ser compreendida através do simples estudo dos Vedas, nem por submeter-se a sérias penitências, nem por fazer caridade, nem por prestar adoração. Não é por estes meios que se pode ver-Me como sou.
54. Meu querido Arjuna, só pelo serviço devocional indiviso é possível compreender-Me como sou, tal qual Me apresento diante de ti, e assim poder Me ver diretamente. Só desse modo podes ingressar nos mistérios da compreensão acerca de Mim.
55. Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre das contaminações das atividades fruitivas e da especulação mental, que trabalha para Mim e faz de Mim a meta suprema de sua vida, sendo amigo de todos os seres vivos – com certeza virá a Mim.
Capítulo doze
Serviço Devocional
1. Arjuna perguntou: Quais são considerados mais perfeitos, aqueles que sempre estão devidamente ocupados em Seu serviço devocional ou aqueles que adoram o Brahman impessoal, o imanifesto?
2. A Suprema Personalidade de Deus disse: Aqueles que fixam suas mentes em Minha forma pessoal e sempre se ocupam em adorar-Me com grande fé transcendental, Eu os considero muito perfeitos.
3-4. Mas aqueles que adoram plenamente o imanifesto, aquilo que está além da percepção dos sentidos, o onipenetrante, inconcebível, imutável, fixo e imóvel – a concepção impessoal sobre a Verdade Absoluta – controlando os vários sentidos e sendo equânimes para com todos, tais pessoas, ocupadas em prol do bem-estar de todos, acabarão Me alcançando.
5. Para aqueles cujas mentes estão apegadas ao aspecto impessoal e imanifesto do Supremo, o progresso é muito problemático. Progredir nesta disciplina é sempre difícil para aqueles que estão corporificados.
6-7. Mas aqueles que Me adoram, abandonando todas as atividades por Mim e não se afastando de sua devoção a Mim, ocupando-se em serviço devocional e sempre meditando em Mim, tendo fixado suas mentes em Mim, ó filho de Pritha – para eles Eu sou o pronto salvador do oceano de nascimentos e mortes.
8. Fixa tua mente em Mim, a Suprema Personalidade de Deus, e ocupa toda a tua inteligência em Mim. Assim, não haverá dúvida alguma de que viverás sempre em Mim.
9. Meu querido Arjuna, ó conquistador de riquezas, se você não pode fixar sua mente em Mim sem se desviar, então, segue os princípios reguladores que fazem parte da bhakti-yoga. Desenvolva deste modo um desejo de Me alcançar.
10. Se não podes praticar as regulações que fazem parte da bhakti-yoga, então, simplesmente tenta trabalhar para Mim. Porque, trabalhando para Mim, chegarás à fase perfeita.
11. Se, entretanto, és incapaz de trabalhar nesta Minha consciência, então, tenta agir renunciando a todos os resultados de seu trabalho e procure situar-te no eu.
12. Se não podes adotar esta prática, então, ocupa-te no cultivo do conhecimento. Entretanto, melhor do que o conhecimento é a meditação, e melhor do que a meditação é a renúncia aos frutos da ação, pois, com esta renúncia, pode-se alcançar paz de espírito.
13-14. Aquele que não é invejoso, mas é um amigo bondoso para todas as entidades vivas, que não se considera proprietário e está livre do ego falso, que é equânime tanto na felicidade quanto na aflição, que é tolerante, sempre satisfeito, autocontrolado e ocupa-se em serviço devocional com determinação, tendo sua mente e inteligência fixas em Mim – semelhante devoto me é muito querido.
15. Aquele que não põe ninguém em dificuldade e a quem ninguém perturba, que é equânime na felicidade e na aflição, no medo e na ansiedade, Me é muito querido.
16. Meu devoto, que não depende do curso em que as atividades habitualmente se desenvolvem, que é puro, perito, despreocupado, livre de todas as dores, e não luta para obter algum resultado, Me é muito querido.
17. Aquele que não se alegra nem se magoa, que não se lamenta nem deseja, e que renuncia tanto às coisas auspiciosas quanto às inauspiciosas – semelhante devoto Me é muito querido.
18-19. Aquele que é igual para os amigos e inimigos; que é equânime na honra e na desonra, calor e frio, felicidade e aflição, fama e infâmia; que está sempre livre da associação contaminadora, sempre silencioso e satisfeito com qualquer coisa, que não se importa com nenhuma residência; que está fixo em conhecimento e se ocupa em serviço devocional – semelhante pessoa me é muito querida.
20. Aqueles que seguem este caminho imperecível do serviço devocional e que se ocupam com plena fé, fazendo de Mim a meta suprema, são muitíssimos queridos a Mim.
Capítulo treze
A Natureza, o Desfrutador e a Consciência
1-2. Arjuna disse: Ó meu querido Krishna, quero saber sobre a natureza (prakriti), o desfrutador (purusha), o campo (kshetra) e o conhecedor do campo (kshetrajña), e sobre o conhecimento (jñanam) e o objeto do conhecimento (jñeya). A Suprema Personalidade de Deus disse: Este corpo, ó filho de Kunti, chama-se o campo, e quem conhece este corpo chama-se o conhecedor do campo.
3. Ó descendente de Bharata, deves entender que, em todos os corpos, Eu também sou o conhecedor, e compreender este corpo e seu conhecedor chama-se conhecimento. Esta é a Minha opinião.
4. Agora, por favor, ouve enquanto faço uma breve descrição deste campo de atividade e de seus elementos constituintes, e enquanto descrevo quais são suas mudanças, qual a fonte que o origina, quem é este conhecedor do campo de atividades e que influências ele exerce.
5. Em vários escritos védicos, diversos sábios descrevem este conhecimento sobre o campo de atividades. O Vedanta-sutra o apresenta de maneira especial, ao fazer um extenso raciocínio sobre a causa e o efeito.
6-7. Os cinco grandes elementos, o ego falso, a inteligência, o imanifesto, os dez sentidos e a mente, os cinco objetos dos sentidos, o desejo, o ódio, a felicidade, o sofrimento, o agregado, os sintomas vitais e as convicções – todos estes são considerados, em resumo, o campo de atividades e suas interações.
8-12. Humildade; modéstia; não-violência; tolerância; simplicidade; aproximar-se de um mestre espiritual genuíno; limpeza; firmeza; autocontrole; renúncia ao objeto de gozo dos sentidos; ausência de ego falso; a percepção segundo a qual o nascimento, a morte; a velhice e a doença são condições desfavoráveis; desapego; estar livre do enredamento com os filhos, esposa, lar e o resto; equanimidade diante de acontecimentos agradáveis e desagradáveis; devoção constante e imaculada a Mim; aspirar a viver num lugar solitário; afastar-se da massa geral das pessoas; aceitar a importância da auto-realização; e empreender uma busca filosófica da Verdade Absoluta – declaro que tudo isto é conhecimento, e algo diferentes disto é ignorância.
13. Passarei agora a explicar o conhecível, conhecendo o qual saborearás o eterno. Brahman, o espírito, que não tem começo e é subordinado a Mim, situa-Se além da causa e do efeito deste mundo material.
14. Em toda a parte estão Suas mãos e pernas, Seus olhos, cabeças e rostos, e Ele tem ouvidos em toda parte. É deste modo que a Superalma existe, penetrando tudo.
15. A Superalma é a fonte que origina todos os sentidos, no entanto, Ele é desprovido de sentidos. Ele é desapegado, embora seja o mantenedor de todos os seres vivos. Ele transcende os modos da natureza, e ao mesmo tempo é o senhor de todos os modos da natureza material.
16. A Verdade Suprema existe fora e dentro de todos os seres vivos móveis e inertes. Porque é sutil, Ele está além do poder visual ou cognoscitivo dos sentidos materiais. Embora longe, longe, Ele também está perto de todos.
17. Embora pareça estar dividido entre todos os seres, a Superalma nunca Se divide. Sua situação é sempre a mesma. Embora Ele seja o mantenedor de toda entidade viva, deve-se compreender que Ele devora e desenvolve tudo.
18. Ela é a fonte de luz em todos os objetos luminosos. Ele está além da escuridão própria da matéria e é imanifesto. Ele é o conhecimento, o objeto do conhecimento e a meta do conhecimento. Ele está situado nos corações de todos.
19. Assim descrevi sucintamente o campo de atividades (o corpo), o conhecimento e o conhecível. Só Meus devotos podem compreender isto na íntegra e então alcançar Minha natureza.
20. Deve-se entender que a natureza material e as entidades vivas não têm começo. As transformações por que elas passam e os modos da matéria são produtos da natureza material.
21. Está dito que a natureza produz todas as causas e efeitos materiais, ao passo que a entidade viva é a causa dos vários sofrimentos e prazeres deste mundo.
22. Dessa forma, a entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isto decorre de sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida.
23. Contudo, neste corpo há outrem, um desfrutador transcendental, que é o Senhor, o proprietário supremo, que age como o supervisor e permissor e que é conhecido como Superalma.
24. Aquele que compreende esta filosofia que trata da natureza material, da entidade viva e da interação dos modos da natureza com certeza alcançará a liberação. Ele não voltará a nascer aqui, não importa qual seja sua posição atual.
25. Alguns percebem a Superalma dentro de si através da meditação, outros, através do cultivo de conhecimento, e outros, através do trabalho sem desejos fruitivos.
26. E há também aqueles que, embora não sejam versados em conhecimento espiritual, passam a adorar a Pessoa Suprema após ouvirem outros falarem a respeito dEle. Por causa de sua tendência de ouvir as autoridades, eles também transcendem o caminho de nascimentos e mortes.
27. Ó principal dos Bharatas, fica sabendo que tudo o que existe, seja móvel ou inerte, é apenas uma combinação do campo das atividades e do conhecedor do campo.
28. Aquele que vê que a Superalma acompanha a alma individual em todos os corpos, e que compreende que a alma e a Superalma dentro do corpo destrutível jamais são destruídos, vê de verdade.
29. Aquele que vê a Superalma igualmente presente em toda a parte e em cada ser vivo não se degrada por sua mente. Assim, ele se aproxima do destino transcendental.
30. Quem pode ver que todas as atividades são executadas pelo corpo, que é uma criação da natureza material, e vê que o eu nada faz, vê de verdade.
31. Quando um homem sensato deixa de ver diferentes identidades conseqüentes a diferentes corpos materiais e vê como os seres se expandem por toda a parte, ele alcança a concepção Brahman.
32. Aqueles com a visão de eternidade podem ver que a alma imperecível é transcendental, eterna e situada além dos modos da natureza. Apesar do contato com o corpo material, ó Arjuna, a alma nada faz nem se enreda.
33. O céu, devido a sua natureza sutil, não se mistura com nada, embora seja onipenetrante. De modo semelhante, a alma situada na visão Brahman não se identifica com o corpo, embora esteja nesse mesmo corpo.
34. Ó filho de Bharata, assim como o Sol ilumina sozinho todo este Universo, do mesmo modo, a entidade viva, sozinha dentro do corpo, ilumina o corpo inteiro através da consciência.
35. Aqueles que com os olhos do conhecimento vêem a diferença entre o corpo e o conhecedor do corpo, e podem também compreender o processo que consiste em libertar-se do cativeiro da natureza material, alcançam a meta suprema.
Capítulo quatorze
Os Três Modos da Natureza Material
1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Volto a te expor esta sabedoria suprema, o melhor entre todos os conhecimentos, conhecendo a qual todos os sábios atingiram a perfeição suprema.
2. Fixando-se neste conhecimento, a pessoa pode alcançar a natureza transcendental, igual à Minha. Nessa situação, ela não nasce no momento da criação nem é perturbada no momento da dissolução.
3. A totalidade da substância material, chamada Brahman, é a fonte de nascimento, e é esse Brahman que Eu fecundo, possibilitando os nascimentos de todos os seres vivos, ó filho de Bharata.
4. Ó filho de Kunti, deve-se compreender que é com o nascimento nesta natureza material que todas as entidades vivas, em todas as espécies de vida, tornam-se possíveis, e que Eu sou o pai que dá a semente.
5. A natureza material consiste em três modos – bondade, paixão e ignorância. A entrar em contato com a natureza, ó Arjuna de braços poderosos, a entidade viva eterna condiciona-se a esses modos.
6. Ó pessoa virtuosa, o modo da bondade, sendo mais puro que os outros, ilumina, livrando a pessoa de todas as reações pecaminosas. Aqueles que estão situados neste modo condicionam-se a uma sensação de felicidade e conhecimento.
7. O modo da paixão nasce de desejos e anseios ilimitados, ó filho de Kunti, e por causa disso a entidade viva corporificada está presa às ações fruitivas materiais.
8. Ó filho de Bharata, fica sabendo que no modo da escuridão, nascido da ignorância, todas as entidades vivas corporificadas ficam iludidas. Os resultados deste modo são a loucura, a indolência e o sono, que atam a alma condicionada.
9. Ó filho de Bharata, o modo da bondade condiciona o homem à felicidade; a paixão o condiciona à ação fruitiva; e a ignorância, cobrindo seu conhecimento, o ata à loucura.
10. Às vezes, o modo da bondade se torna preeminente, derrotando os modos da paixão e da ignorância, ó filho de Bharata. Às vezes, o modo da paixão sobrepuja a bondade e a ignorância, e outras vezes a ignorância derrota a bondade e a paixão. Dessa maneira, há sempre competição pela supremacia.
11. As manifestações do modo da bondade podem ser experimentadas quando todos os portões do corpo são iluminados pelo conhecimento.
12. Ó melhor entre os Bharatas, quando há um aumento do modo da paixão, desenvolvem-se sintomas de grande apego, atividade fruitiva, esforço intenso e anseio incontroláveis.
13. Quando predomina o modo da ignorância, ó filho de Kuru, manifestam-se escuridão, inércia, loucura e ilusão.
14. Quando alguém morre no modo da bondade, ele atinge os planetas superiores puros, onde residem os grandes sábios.
15. Quando alguém morre no modo da paixão, ele nasce entre os que se ocupam em atividades fruitivas; e quando morre no modo da ignorância, nasce no reino animal.
16. O resultado da ação piedosa é puro e se diz que está no modo da bondade. Mas a ação feita no modo da paixão resulta em miséria, e a ação executada no modo da ignorância resulta em tolice.
17. Do modo da bondade, desenvolve-se o verdadeiro conhecimento; do modo da paixão, desenvolve-se a cobiça; e do modo da ignorância, desenvolvem-se a tolice, a loucura e a ilusão.
18. Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais.
19. Quando alguém vê corretamente que em todas as atividades o único agente que está em ação são estes modos da natureza e quando conhece o Senhor Supremo, que é transcendental a todos estes modos, ele então alcança Minha natureza espiritual.
20. Quando é capaz de transcender estes três modos associados com o corpo material, o ser corporificado pode libertar-se do nascimento, da morte, da velhice e dos sofrimentos que são inerentes a eles, e mesmo nesta vida pode gozar o néctar.
21. Arjuna perguntou: Ó meu querido Senhor, através de quais sintomas reconhece-se quem é transcendental a estes três modos? Qual é seu comportamento? E como ele transcende os modos da natureza?
22-25. A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó Filho de Pandu, aquele que não odeia a iluminação, o apego e a ilusão quando estão presentes nem os deseja quando desaparecem; que não se abala nem se perturba com quaisquer das reações das qualidades materiais, permanecendo neutro e transcendental; sabendo que os modos é que são ativos; que está situado no eu e tem o mesmo comportamento diante da felicidade e sofrimento; que olha para um torrão de terra, uma pedra e um pedaço de ouro com a mesma visão; que é igual para o desejável e o indesejável; que é estável, igual no louvor e na repreensão, honra e desonra; que dá o mesmo tratamento tanto ao amigo quanto ao inimigo; e que renunciou a todas as atividades materiais – diz-se que essa pessoa transcendeu os modos da natureza.
26. Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma transcende de imediato os modos da natureza material e chega então ao nível de Brahman.
27. E Eu sou a base do Brahman impessoal, que é imortal, imperecível e eterno e é a posição constitucional da felicidade última.
Capítulo quinze
A Yoga da Pessoa Suprema
1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Afirma-se que existe uma figueira-da-bengala imperecível, cujas raízes ficam para cima e os galhos para baixo e cujas folhas são os hinos védicos. Quem conhece esta árvore é um conhecedor dos Vedas.
2. Os galhos desta árvore se estendem para baixo e para cima, nutridos pelos três modos da natureza material. Os brotos são os objetos dos sentidos. Esta árvore também tem raízes que descem, e estas estão atadas às ações fruitivas da sociedade humana.
3-4. Não se pode perceber a verdadeira forma desta árvore neste mundo. Ninguém pode compreender onde ela acaba, onde começa, ou onde ela se alicerça. Mas com determinação deve-se derrubar com a arma do desapego esta árvore fortemente arraigada. Em seguida, deve-se procurar aquele lugar do qual ninguém volta após ter chegado lá e render-se a esta Suprema Personalidade de Deus de quem tudo começou e de quem tudo emana desde tempos imemoriais.
5. Aqueles que estão livres do falso prestígio, da ilusão e da falsa associação, que compreendem o eterno, que se enfastiaram da luxúria material, que estão livres das dualidades manifestas sob a forma de felicidade e sofrimento, e que com toda a lucidez sabem como se render à Pessoa Suprema alcançam este reino eterno.
6. Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo Sol ou pela Lua, nem pelo fogo ou pela eletricidade. Aqueles que a alcançam jamais retornam a este mundo material.
7. As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias. Por força da vida condicionada, elas empreendem árdua luta com os seis sentidos, entre os quais se inclui a mente.
8. Assim como o ar transporta os aromas, a entidade viva no mundo material leva de um corpo para outro suas diferentes concepções de vida. Com isso, ela aceita uma espécie de corpo e ao abandoná-lo volta a aceitar outro.
9. A entidade viva, aceitando esse outro corpo grosseiro, obtém um certo tipo de ouvido, olho, língua, nariz e sentido do tato, que se agrupam ao redor da mente. Ela então desfruta um conjunto específico de objetos dos sentidos.
10. Os tolos não conseguem compreender como a entidade viva pode abandonar seu corpo, nem conseguem entender a espécie de corpo que ela usufruirá sob o encanto dos modos da natureza. Mas aqueles cujos olhos estão treinados em conhecimento pode ver tudo isto.
11. Os transcendentalistas diligentes, que estão em auto-realização, podem ver tudo isto com bastante clareza. Mas aqueles cujas mentes não são desenvolvidas e que não estão situados em auto-realização não podem ver o que está acontecendo, mesmo que tentem.
12. O esplendor do Sol, que dissipa a escuridão de todo esse mundo, vem de Mim. O esplendor da Lua e o esplendor do fogo também vêm de Mim.
13. Eu entro em cada planeta, e por intermédio de Minha energia eles permanecem em órbita. Eu Me torno a Lua e desse modo forneço o suco da vida a todos os vegetais.
14. Nos corpos de todas as entidades vivas, Eu sou o fogo da digestão e Me uno ao ar vital, que sai e que entra, para digerir as quatro espécies de alimentos.
15. Estou situado nos corações de todos, e é de Mim que vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento. Através de todos os Vedas, é a Mim que se deve conhecer. Na verdade, sou o compilador do Vedanta e sou aquele que conhece os Vedas.
16. Há duas classes de seres, os falíveis e infalíveis. No mundo material, toda entidade viva é falível, e no mundo espiritual, toda entidade viva se chama infalível.
17. Além desses dois, há também a maior personalidade viva, a Alma Suprema, o próprio Senhor imperecível, que entrou nos três mundos e os mantém.
18. Porque sou transcendental, situado além do falível e do infalível, e porque sou o maior, sou celebrado tanto no mundo quanto nos Vedas como essa Pessoa Suprema.
19. Quem quer que, sem duvidar, conheça-me como a Suprema Personalidade de Deus, é o conhecedor de tudo. Ele, portanto, se ocupa em pleno serviço devocional a Mim, ó filho de Bharata.
20. Esta é a parte mais confidencial das escrituras védicas, ó pessoa impoluta, e está sendo revelada por Mim. Quem quer que compreenda isto se tornará sábio, e seus esforços redundarão em perfeição.
Capítulo dezesseis
As Naturezas Divinas e Demoníacas
1-3. A Suprema Personalidade de Deus disse: Destemor, purificação da própria existência; cultivo de conhecimento espiritual; caridade; autocontrole; execução de sacrifícios; estudo dos Vedas; austeridade; simplicidade; não-violência; veracidade; estar livre da ira; renúncia; tranqüilidade; não gostar de achar defeitos; compaixão para com todas as entidades vivas; estar livre da cobiça; gentileza; modéstia; firme determinação; vigor; clemência; fortaleza; limpeza, estar livre da inveja e da paixão pela honra – estas qualidades transcendentais, ó filho de Bharata, existem nos homens piedosos dotados de natureza divina.
4. Orgulho, arrogância, presunção, ira, rispidez e ignorância – estas qualidades pertencem àqueles cuja natureza é demoníaca, ó filho de Pritha.
5. As qualidades transcendentais conduzem à liberação, ao passo que as qualidades demoníacas levam ao cativeiro. Não se preocupe, ó filho de Pandu, pois você nasceu com as qualidades divinas.
6. Ó filho de Pritha, neste mundo há duas espécies de criaturas. Uma é chamada divina e a outra, demoníaca. Já me detive a explicar-lhe as qualidades divinas. Agora ouça enquanto falo sobre as características demoníacas.
7. Aqueles que são demoníacos não sabem o que se deve fazer e o que não se deve fazer. Neles não se encontram limpeza, comportamento adequado nem verdade.
8. Eles dizem que este mundo é irreal e sem nenhum fundamento; que é produzido do desejo sexual e tem como causa apenas a luxúria. Dizem que não há Deus no controle.
9. Seguindo essas conclusões, os demoníacos sem saber o que fazer e sem nenhuma inteligência, ocupam-se em atividades prejudiciais e hediondas que só servem para destruir o mundo.
10. Refugiando-se na luxúria insaciável e absortos na presunção própria do orgulho e do falso prestígio, os demoníacos, nesta ilusão, estão sempre comprometidos com o trabalho sujo atraídos pelo impermanente.
11-12. Eles acreditam que satisfazer o sentidos é a necessidade primordial da civilização humana. Com isto, até o fim da vida sua ansiedade é imensurável. Presos a uma rede de centenas de milhares de desejos e absortos na luxúria e na ira, eles recorrem a meios ilegais para obter o dinheiro que investirão no gozo dos sentidos.
13-15. O ser demoníaco pensa: “Tanta riqueza eu tenho hoje, e vou ganhar mais conforme meus planos. Tenho tanto agora e isto aumentará mais e mais no futuro. Matei esse meu inimigo, e meus outros inimigos também serão mortos. Eu sou o senhor de tudo. Eu sou o desfrutador. Sou perfeito, poderoso e feliz. Sou o homem mais rico, rodeado por parentes aristocráticos. Não há ninguém tão poderoso e feliz como eu. Executarei sacrifícios, farei alguma caridade, e com isso, ficarei contente”. Dessa maneira, eles são iludidos pela ignorância.
16. Assim perplexos diante de tantas ansiedades e presos numa rede de ilusões, eles se apegam demasiadamente ao gozo dos sentidos e caem no inferno.
17. Acomodados e sempre cínicos, deixando-se iludir pela riqueza e pelo falso prestígio, eles às vezes orgulhosamente executam sacrifícios apenas de nome, sem seguirem nenhuma regra ou regulação.
18. Confundidos pelo ego falso, força, orgulho, luxúria e ira, os demônios passam a invejar a Suprema Personalidade de Deus, que está em seus próprios corpos e nos corpos dos outros, e blasfemam contra a religião verdadeira.
19. Aqueles invejosos e canalhas, que são os mais baixos entre os homens, eu perpetuamente os arrojo no oceano da existência material, onde assumiram várias espécies de vida demoníaca.
20. Submetendo-se a repetidos nascimentos entre as espécies de vida demoníaca, ó filho de Kunti, tais pessoas jamais conseguem aproximar-se de Mim. Aos poucos, elas afundam-se na mais abominável condição de existência.
21. Há três portões que conduzem a este inferno – a luxúria, a ira e a cobiça. Todo homem são deve afastar-se destes desvarios, pois eles conduzem à degradação da alma.
22. O homem que escapou a estes três portões do inferno, ó filho de Kunti, executa atos que conduzem à auto-realização e aos poucos atinge o destino supremo.
23. Aquele que põe de lado os preceitos das escrituras e age conforme os próprios caprichos não alcança a perfeição, a felicidade nem o destino supremo supremo.
24. É Através das normas dadas nas escrituras que se deve, portanto, entender o que é dever e o que não é dever. Conhecendo essas regras e regulações, todos devem agir de modo a elevarem-se gradualmente.
Capítulo dezessete
As Divisões da Fé
1. Arjuna perguntou: Ó Krishna, em que situação ficam aqueles que não seguem os princípios da escritura, mas adoram segundo sua própria imaginação? Estão eles em bondade, paixão ou ignorância?
2. A Suprema Personalidade de Deus disse: Conforme os modos da natureza adquiridos pela alma corporificada, sua fé pode ser de três espécies – na bondade, na paixão ou na ignorância. Agora ouça enquanto falo sobre isso.
3. Ó filho de Bharata, conforme sua existência sob os vários modos da natureza, o homem desenvolve determinada espécie de fé. Conforme os modos com os quais conviveu, o ser vivo tem uma fé específica.
4. Os homens no modo da bondade adoram os semideuses; aqueles que estão no modo da paixão adoram os demônios; e aqueles que vivem no modo da ignorância adoram fantasmas e espíritos.
5-6. Aqueles que se submetem a rigorosas austeridades e penitências não recomendadas nas escrituras, executando-as por orgulho e egoísmo, que são impelidos pela luxúria e apego, que são tolos e que torturam os elementos materiais do corpo bem como a Superalma que mora no interior deste, devem ser conhecidos como demônios.
7. Mesmo o alimento que cada pessoa prefere é de três espécies, conforme os três modos da natureza material. O mesmo se aplica aos sacrifícios, às austeridades e à caridade. Agora ouça enquanto falo sobre as distinções que há entre eles.
8. Os alimentos apreciados por aqueles que estão no modo da bondade aumentam a duração da vida, purificam a existência e dão força, saúde, felicidade e satisfação. Semelhantes alimentos são suculentos, gordurosos, saudáveis e agradáveis para o coração.
9. Alimentos que são muito amargos, muito acres, salgados, quentes, picantes, secos e ardentes são apreciados por quem está no modo da paixão. Tais alimentos causam sofrimento, miséria e doença.
10. Alimento preparado mais do que três horas antes de ser ingerido, alimento insípido, decomposto e putrefato, e alimento que consiste em refugos e substâncias intocáveis atrai aqueles que estão no modo da escuridão.
11. Dos sacrifícios, é da natureza da bondade o sacrifício que por uma mera questão de dever é executado conforme as direções das escrituras por aqueles que não desejam nenhuma recompensa.
12. Mas deves saber que o sacrifício executado em troca de algum benefício material, ou por causa do orgulho, ó principal dos Bharatas, está no modo da paixão.
13. Considera-se que todo sacrifício executado sem que se levem em consideração as direções das escrituras, sem que se distribua prasadam (alimento espiritual), sem que se cantem os hinos védicos, sem que se remunerem os sacerdotes e sem que se tenha fé, está no modo da ignorância.
14. A austeridade do corpo consiste em adorar o Senhor Supremo, os brahmanas, o mestre espiritual e os superiores, tais como o pai e a mãe, e em limpeza, simplicidade, celibato e não-violência.
15. A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam aos outros, e também em recitar regularmente a literatura védica.
16. E satisfação, simplicidade, gravidade, autocontrole e purificação da existência são as austeridades da mente.
17. Estas três espécies de austeridade, executadas com fé transcendental por quem não espera benefícios materiais mas que atua apenas por amor ao Supremo, chamam-se austeridades em bondade.
18. Afirma-se que a penitência executada por orgulho e com o intuito de ganhar respeito, honra e adoração está no modo da paixão. Não é estável nem permanente.
19. Penitência executada por tolice, com autotortura ou visando a destruir ou ferir os outros se diz que está no modo da ignorância.
20. A caridade dada por dever, sem expectativa de recompensa, no local e hora apropriados e dada a alguém digno, está no modo da bondade.
21. Mas a caridade executada com expectativa de alguma recompensa, ou com desejo de resultados fruitivos, ou com má vontade, diz-se que é caridade no modo da paixão.
22. E a caridade executada em lugar impuro, em hora imprópria e feita a pessoas indignas ou sem a devida atenção e respeito diz-se que está no modo da ignorância.
23. Desde o começo da criação, as três palavras “om tat sat” foram usadas para indicar a Suprema Verdade Absoluta. Estas três representações simbólicas eram usadas pelos brahmanas enquanto cantavam os hinos dos Vedas e durante os sacrifícios que eles executavam para a satisfação do Supremo.
24. Portanto, para alcançar o Supremo, os transcendentalistas, empreendendo a execução de sacrifícios, caridade e penitências conforme as regulações das escrituras, inicialmente sempre pronunciam o om.
25. Com a palavra tat, deve-se executar várias espécies de sacrifício, penitência e caridade sem desejar resultados fruitivos. O propósito dessas atividades transcendentais é livrar-se do enredamento material.
26-27. A Verdade Absoluta é o objetivo do sacrifício devocional, e é indicada pela palavra sat. O executor deste sacrifício também é chamado “sat”, assim como o são todas as obras de sacrifício, penitência e caridade que, em harmonia com a natureza absoluta, são executadas para agradar à Pessoa Suprema, ó filho de Pritha.
28. Tudo aquilo que é feito como sacrifício, caridade ou penitência sem fé no Supremo, ó filho de Pritha, é impermanente. Chama-se asat e é inútil tanto nesta vida quanto na próxima.
Capítulo dezoito
A Perfeição da Renúncia
1. Arjuna disse: Ó pessoa de braços poderosos, desejo compreender o propósito da renúncia e da ordem de vida renunciada (sannyasa), ó matador do demônio Keshi, Senhor dos sentidos.
2. A Suprema Personalidade de Deus disse: A renúncia a atividades que se baseiam no desejo material é o que os grandes eruditos chamam de ordem de vida renunciada (sannyasa). E abdicar os resultados de todas as atividades é o que os sábios chamam de renúncia (tyaga).
3. Alguns homens instruídos declaram que todas as espécies de atividades fruitivas devem ser abandonadas porque são defeituosas, mas outros sábios argumentam que os atos de sacrifício, caridade e penitência jamais devem ser abandonados.
4. Ó melhor dos Bharatas, agora ouça o que tenho a dizer sobre a renúncia. Ó tigre entre os homens, as escrituras afirmam que há três categorias de renúncia.
5. Os atos de sacrifício, caridade e penitência não devem ser abandonados, ma sim executados. Na verdade, sacrifício, caridade e penitência purificam até as grandes almas.
6. Todas essas atividades devem ser executadas sem apego nem expectativa alguma de resultado. Elas devem ser executadas por uma simples questão de dever, ó filho de Pritha. Esta é Minha opinião final.
7. Nunca se deve renunciar aos deveres prescritos. Se, por causa da ilusão, alguém renuncia a seus deveres prescritos, diz-se que semelhante renúncia está no modo da ignorância.
8. Todos que abandonaram seus deveres prescritos por serem problemáticos ou por medo de desconforto físico renunciaram sob a influência do modo da paixão. Tal ato jamais conduz à elevação decorrente da renúncia.
9. Ó Arjuna, quando alguém executa seu dever prescrito só porque deve ser feito, e renuncia a toda a associação material e a todo o apego ao fruto, diz-se que sua renúncia está no modo da bondade.
10. O renunciante inteligente, situado no modo da bondade, que não detesta o trabalho inauspicioso nem se apega ao trabalho auspicioso, não tem nenhuma dúvida sobre o trabalho.
11. De fato, é impossível para um ser corporificado renunciar a todas as atividades. Mas quem renuncia aos frutos da ação é que renunciou de verdade.
12. Para quem não é renunciado, as três espécies de frutos da ação – desejáveis, indesejáveis e mistos – germinam após a morte. Mas aqueles que estão na ordem de vida renunciada não experimentam este resultado sob a forma de sofrimento e prazer.
13. Ó Arjuna de braços poderosos, segundo o Vedanta existem cinco causas que levam à concretização de todos os atos. Agora ouça enquanto falo sobre isto.
14. O lugar onde ocorre a ação (o corpo), o executor, os vários sentidos, as muitas diferentes espécies de esforço e, por fim, a Superalma – estes são os cinco fatores da ação.
15. Qualquer ação certa ou errada que um homem execute através do corpo, da mente ou da fala é causada por estes cinco fatores.
16. Portanto, aquele que se considera o único executor e não leva em consideração os cinco fatores com certeza não é muito inteligente e não pode perceber as coisas como elas são.
17. Aquele que não é motivado pelo ego falso, cuja inteligência não está enredada, embora mate homens neste mundo, não mata. Tampouco fica preso a suas ações.
18. O conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor são os três fatores que motivam a ação; os sentidos, o trabalho e o autor são os três constituintes da ação.
19. Conforme os três diferentes modos da natureza material, há três classes de conhecimento, ação e executor da ação. Agora ouça enquanto falo sobre elas.
20. Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas.
21. Você deve entender que está no modo da paixão aquele conhecimento com o qual se vê em cada corpo diferente um diferente tipo de entidade viva.
22. E diz-se que está no modo da ignorância aquele conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como tudo o que existe, sem ter a compreensão da verdade, além de ser muito escasso.
23. Diz-se que está no modo da bondade aquela ação que é regulada e que se executa sem apego, sem amor nem repulsa e sem desejo de resultados fruitivos.
24. Mas a ação executada com grande esforço por alguém que busca satisfazer seus desejos, e efetuada por causa de uma sensação de ego falso, chama-se ação no modo da paixão.
25. A ação executada em ilusão, que não leva em conta os preceitos das escrituras, e em que não há preocupação com cativeiro futuro ou com violência ou sofrimento causados aos outros diz-se que está no modo da ignorância.
26. Aquele que executa seu dever sem entrar em contato com os modos da natureza material, sem ego falso, com grande determinação e entusiasmo, e sem se deixar levar pelo sucesso ou pelo fracasso diz-se que é um trabalhador no modo da bondade.
27. O trabalhador que se apega ao trabalho e aos frutos do trabalho, desejando gozar esses frutos, e que é cobiçoso, sempre invejoso, impuro e que se deixa afetar pela alegria e tristeza, diz-se que está no modo da paixão.
28. O trabalhador que sempre está ocupado em trabalho que vai de encontro aos preceitos das escrituras, que é materialista, obstinado, trapaceiro e perito em insultar os outros, e que é preguiçoso, sempre desanimado e irresoluto diz-se que é um trabalhador no modo da ignorância.
29. Ó conquistador de riquezas, agora por favor ouça enquanto lhe falo pormenorizadamente sobre as diferentes espécies de compreensão e determinação, segundo os três modos da natureza material.
30. Ó filho de Pritha, esta compreensão pela qual se sabe o que deve ser feito e o que não deve ser feito, o que se deve temer e o que não se deve temer, o que prende e o que liberta, está no modo da bondade.
31. Ó filho de Pritha, a compreensão que não pode distinguir entre religião e irreligião, entre ação que deve ser feita e ação que não deve ser feita, está no modo da paixão.
32. A compreensão que considera a irreligião como religião e a religião como irreligião, que age sob o encanto da ilusão e da escuridão e se esforça sempre na direção errada, ó Partha, está no modo da ignorância.
33. Ó filho de Pritha, a determinação que é inquebrantável, que através da prática de yoga ganha muita firmeza e controla então as atividades da mente, vida e sentidos, é determinação no modo da bondade.
34. Mas a determinação pela qual o homem se atem aos resultados fruitivos da religião, do desenvolvimento econômico e do gozo dos sentidos é da natureza da paixão, ó Arjuna.
35. E a determinação que não pode transpor o sonho, o medo, a lamentação, a melancolia e a ilusão – tal determinação ininteligente, ó filho de Pritha, está no modo da escuridão.
36. Ó melhor dos Bharatas, agora por favor ouça enquanto falo sobre as três espécies de felicidade que levam a alma condicionada a desfrutar e que às vezes lhe trazem o fim de todo o sofrimen